Apontamentos de Viagem

Apresentação

Em 1901, Ângelo, que tinha pouco mais de dez anos ao emigrar, transcreveu os apontamentos de viagem do pai, Giuseppe Dall’Acqua, que faleceria em 1907, em um caderno de capa dura, de cor vermelha, onde se lê:

Autor: Giuseppe Dall’Acqua GLI EMIGRANTI
Appunti di Viaggio

Bento Gonçalves – Rio Grande do Sul, Brasil, 1901.

Os Appunti ocupam cento e trinta e seis páginas das cento e sessenta e cinco escritas de que se compõe o caderno. Na introdução, às páginas de n.o 2 e n.o 3, Ângelo Dall’ Acqua apresenta o seu trabalho: a narração da viagem, da Itália para o Brasil, de Giuseppe Dall’Acqua e Anna Bonfardin e cinco filhos, dos quais ele era um. O objetivo: transmitir, aos pósteros da família Dall’Acqua, a experiência dramática e dolorosa de emigrar.

Ângelo copiou as anotações de seu pai – hoje, lamentavelmente perdidas. Organizou o relato e deu-lhe forma de obra literária, ou seja, o texto dividido em partes e capítulos, uma apresentação, uma introdução e um índice por fecho. Diz ter feito correções e melhoramentos no texto, porém, sem alterar-lhe o sentido e sem artifícios para torná-lo mais interessante ou valorizar a obra.

A narração é feita na terceira pessoa do singular. É objetiva: os sentimentos não transparecem a não ser através de algumas palavras que ossugerem; o autornão reserva espaço para fatos pessoais, tanto dos familiares, como das outras famílias conterrâneas que viajavam com ele. Nenhum indício a sugerir que Anna, a esposa, estava grávida de um filho – o último – nascido quatro meses após a chegada a Linha Palmeiro; que as crianças, na estada em Porto Alegre, saíram à rua para pedir “vintém” a fim de abrandar a fome não satisfeita na Casa da Emigração; que Anna, pelo mesmo motivo, vendeu sua longa cabeleira – escondida por um lenço como convinha às mulheres casadas – a uma senhora da fina sociedade e, sem dúvida, com o assentimento do marido. Compreende-se, todavia, que sobrem, no decorrer do relato, informações sobre heróis e cidades visitadas, se considerarmos a paixão que tinham os autores, pai e filho Dall’Acqua, pela História, pela Geografia e por todas as manifestações da cultura.

O manuscrito foi guardado por Ângelo Dall’Acqua como um bem de sumo valor, e em silêncio. Nunca foi lido em voz alta para os filhos, nunca emprestado pertencem ao passado histórico de uma família somente. Eles constituem o testemunho do drama vivido por cada emigrante que aportou em nossa pátria em busca de uma vida mais digna, com menos fome e mais esperança. O trajeto percorrido por Dall’Acqua, de sua aldeia até a colônia por ele desmatada e cultivada, foi o mesmo trajeto percorrido por um número incontável de imigrantes de qualquer etnia. Todos tiveram um mar para atravessar, estradas a percorrer, carregando seus fardos, seus filhos e suas sementes; tiveram uma floresta para desbravar para, da terra, colher o fruto do seu sacrifício e celebrar a vida.

Respeitamos, na tradução, o estilo do autor e procuramos ficar o quanto mais próximos do vocabulário e da estrutura sintática do texto original; igualmente, respeitamos os parênteses, as aspas e os termos que aparecem sublinhados pelo autor. Em diversos momentos, incluímos palavras nossas – postas entre colchetes – para melhor clareza do pensamento; outras vezes, não traduzimos palavras redundantes ou desnecessárias à compreensão do texto.

Que a leitura dos Appunti di Viaggio possa ser, para as gerações de hoje e vindouras, um elemento de ajuda na compreensão da história da imigração e na compreensão da história pessoal de cada um, que se identifica com a da própria família e da comunidade em que está inserida. Para complementar a compreensão desses Appunti, seguem dois breves textos nossos que, por sua vez, esclarecem sobre a escritura do diário.

A trajetória dos appunti di viaggio

O original dos Appunti perdeu-se, mas a cópia acompanhou Ângelo Dall’Acqua em suas mudanças pelos anos a fora. Ao falecer, em Ponta Grossa-Paraná, no ano de 1954, o caderno passou às mãos do filho Vitório Dall’Acqua, recém-ordenado sacerdote secular, que o guardou com muito zelo.

Em 1983, Padre Vitório, em visita a sua irmã Itália Dall’Acqua Astolfi, que residia em Novo Hamburgo- Rio Grande do Sul, levou consigo o caderno. Sua intenção era mostrá-lo a alguém ligado ao estudo da imigração italiana no Estado, mas acabou confiando-o à sobrinha Maria Astolfi. Nesse tempo, Frei Rovílio Costa, que estava terminando a preparação dos originais para segundo volume da obra Assim vivem os italianos, ao saber da existência do relato de Dall’Aqua, mesmo sem conhecer-lhe o conteúdo, falou para Maria: – Dou-te dez dias para me apresentares a tradução, e a incluiremos nos originais, que estão prontos para irem à gráfica.

Desse modo, os Appunti di Viaggio ocuparam as páginas 1104 a 1178 do “Assim vivem os italianos”, volume n.o 2, que logo chegou a La Valle Agordina, terra de origem dos Dall’Acqua. Lá, foi apresentado ao médico e pesquisador da história de La Valle, Dr. Corrado Da Roit, que, entusiasmado, intensificou sua pesquisa sobre as famílias agordinas emigradas para o Brasil. O resultado foi uma obra primorosa, intitulada “Lavallesi nel Rio Grande”, contendo o fac símile domanuscrito deGiuseppe Dall’Acqua e a história de todas as famílias de La Valle que emigram para o Rio Grande do Sul, com dados genealógicos dos ancestrais e belas ilustrações. Foi lançada no Rio Grande do Sul no ano 2000, com a presença do autor.

– Maria Astolfi, Gramado/RS

 

APPUNTI DI VIAGGIO

 

Os Emigrantes

Apontamentos de viagem de José Dall’Acqua, que, com sua família, composta da esposa Ana Bonfardin e dos filhos Luís, de doze anos; Ângelo, de dez anos e meio; Ângela, de oito anos; Mateus, de seis anos; e Ana, de três anos, deixou a terra natal, bairro de Lantrago, distrito de La Valle, município de Ágordo e província de Belluno – Itália e emigrou para o Brasil, fixando residência na província do Rio Grande do Sul.

Introdução

A presente narrativa, Apontamentos de Viagem, corrigida e melhorada (de qualquer maneira), foi extraída dos “rascunhos”, um tanto desbotados e lacerados, sem alteração de sentido, sem artifícios e sem pretensão de qualquer natureza, por Ângelo, filho do autor. Na idade em que poderia ter frequentado a escola e aplicar-se com proveito, infelizmente teve de abandoná-la! Aquela escola, onde se aprende a útil, a necessária instrução civil, moral e cristã no mundo!

O presente manuscrito, mal compilado, foi escrito de maneira elementar e simples para contar à posteridade, de parentes e sucessores, a viagem de sete (7) meses e vinte e dois dias dos Pré-Alpes Dolomitas belunenses – Itália – às terras de matas da província do Rio Grande do Sul – Brasil.

Bento Gonçalves (ex-Dona Isabel), 2 de janeiro de 1901.

Capítulo 1  – O porquê do exílio

Despertou em José Dall’Acqua, no ano de 1877, a vontade de emigrar definitivamente com a família, para o Brasil, onde buscaria um melhor futuro. O excesso de população e a apertura econômica na Itália – fosse para o agricultor ou para o artesão – quando não encontravam trabalho, passando dificuldades para levar a vida adiante e ganhar o pão nosso de cada dia, decente e honestamente, obrigavam-nos, com pesar no coração, abandonar a família e tomar a valise, enfiada no guarda-chuva sobre os ombros, atravessar os Alpes ou o oceano
e, no estrangeiro, obter aquilo que não podiam ter em sua pátria.

Não possuindo suficiente terreno agrícola para a produção de produtos para manter a sua família, Dall’Acqua, hábil pedreiro e carpinteiro, gozava de certo prestígio, além de ser muito estimado pelo seu perspicaz e evidente ponto de vista em acomodar litígios, questões e mal- entendidos. Tudo bem. Porém a situação não melhorava, a família tendia a aumentar e a pouca terra que possuía dava sustento para a família por apenas três meses ao ano; além da família, devia pensar na alimentação de um velho irmão, cego de ambos os olhos, e de
uma irmã enferma, presa ao leito havia vários anos. Assim, para viver – e passar os outros nove meses do ano – devia ir para o exterior a fim de ganhar aquele tanto necessário para si e para a família.

Além da Itália, ele conhecia a Suíça, a Áustria, a Hungria, a Alemanha e os estados balcânicos, mas aquela vida atribulada e errante não podia continuar. Não poder estar em casa, no seio de sua família a não ser nos três meses de inverno, o deixava sobremodo triste, preocupado e pensativo. Assim, resolveu, decididamente, já que em breve seria iniciada a emigração para o Brasil e para o Canadá, emigrar na primeira oportunidade para um ou outro dos dois países.

Seppo Dall’Ega (isto é, Giuseppe Dall’Acqua), como vulgarmente era chamado no povoado e com o apelido dos Malech, tinha naquele tempo a idade de trinta e oito anos e outros tantos, sua mulher Anna.

Seppo Dall’Ega, nas suas várias excursões pela Europa, havia aprendido um pouco a ler e escrever e conhecia até bastante bem a língua alemã e também um pouco de húngaro. Isso parece estranho, pois, naqueles tempos, era uma maravilha, um caso raro que uma pessoa soubesse ler e escrever; as contas, faziam-nas nos dedos. À baixa plebe era proibido saber além de um palmo à frente do nariz. Naquele tempo não se falava de democracia. Os governos reacionários não permitiam a instrução à população de baixa categoria. A Itália, sob o
reinado do gentil-homem Vitório Emanuel II, havia se libertado há poucos anos, ou seja, em 1870, dos governos despóticos, tiranos e reacionários daqueles tempos.

Dall’Ega, além da paixão pela leitura, tinha também alguma tendência elementar pelo estudo da geografia. Em 1866, em Nápoles, adquiriu um ótimo livro de geografia, por cuja leitura era apaixonado.

Em uma noite de inverno, no fim de novembro de 1877, trocando idéias com a mulher na escolha do país para onde emigrar e com a Geografia sobre a mesa, depois de haver bem estudado e observado as variações de temperatura e clima, como também as leis políticas, religiosas, o idioma e os costumes, renunciou à idéia de emigrar para o território do Canadá, pertencente à Inglaterra, não só pela língua difícil, de origem anglo-saxônica, como também pelo clima excessivamente rigoroso, com frios siberianos.

Em seguida, observou que, para eles, a preferência seria pelo Brasil, no extremo sul, ou seja, na província do Rio Grande do Sul, pertencente ao Império do Brasil, país de vastíssimas dimensões, de oito milhões e quinhentos mil quilômetros quadrados, situado na América Latina, isto é, [na América] do Sul.

O clima no Rio Grande é temperado, comparável àquele da baixa Itália, e a língua falada é o português, que deriva do idioma latino e é irmã da língua italiana, por isso mais conveniente aos italianos. A única objeção que observou Dall’Ega é que, na América Latina, os governos têm pouca solidez, já que, ora um ora outro encontram-se politicamente em revolução!

Visto, pois, que o Império do Brasil era governado por leis constitucionais democráticas, reinante a religião católica romana e, já que o governo abriria proximamente a emigração, escolheu aquele país para sua nova pátria.

À notícia de que Dall’Ega fizera o projeto de na primeira oportunidade emigrar para o Brasil, uniram-se a ele quatro [chefes de] família: o primo Luís Dall’Acqua, de apelido Fasolo; o primo Giovanni Schena, de apelido Cianello; Giovanni Damian, de apelido Begnù; e Antonio De Zorzi, de apelido Baluosa. Todos cadeireiros de profissão, com suas famílias compostas de três ou quatro filhos cada uma.

Como o Seppo Dall’Ega estava muitas vezes em giro pelo mundo, tinha adquirido muita prática junto às autoridades competentes para desembaraçar e obter os documentos necessários para viajar, tanto no interior como para o exterior. Assim, ele foi encarregado pelos quatro conterrâneos de aviar a tramitação dos passaportes e outros documentos necessários.

Enquanto esperam os respectivos papéis, os viajantes vendem as suas exíguas posses e, enquanto aguardam a partida, preparam as caixas para os pertences: colchões de penas, roupas de cama e individuais e utensílios domésticos.

Chega o primeiro de janeiro de 1878. Os dias passavam. As cinco famílias, na inquietação produzida pela situação precária – seja pelo alimento ou pelo dormir – já que suas roupas e colchões, segundo ordem recebida da Comissão Emigratória, estavam encaixotados, pois que a partida para Vicenza, em carro puxado por mulas, podia ocorrer de um dia para outro – faziam os mais estranhos e disparatados prognósticos. Finalmente, em 20 de janeiro, veio a ordem de estarem prontos para a partida no dia seguinte, pois já estava franqueada a emigração para o Brasil aos italianos.

Assim, foi escolhido o dia 21 de janeiro de 1878 para a esperada partida, em pleno inverno! Na véspera da partida, Seppo Dall’Ega quis dar uma prova de afeto aos seus amigos e parentes – que não veria mais depois do próximo dia – com um sarau. Para tal, chamou a orquestra dos bravos músicos da família Borse, da aldeia. Entre um copo e outro de generoso e ótimo vinho, com alguma estrofe de nostálgico canto popular e alguma cálida lágrima, caída dos olhos sentimentais de um afetuoso parente ou amigo e também, por que não dizê-lo? com algum giro de valsa e manferina e alguns saltos alla carlona, depois de algumas horas terminou a alegre e também lacrimosa e melancólica noite.

Com um cálido e sentimental adeus e um nostálgico abraço e beijo, terminou a última manifestação de afeto aos parentes e amigos da aldeia.

Capítulo 2 – 21 de janeiro de 1878

Eis o dia fatal do desterro da cidade natal! 21 de janeiro de 1878!

Às quatorze horas, carregadas as bagagens no rústico carro do condutor e proprietário Tamea, e acomodados os filhos e suas mães, e depois de um último e angustiante adeus e com os olhos em pranto, o carro, puxado por quatro magríssimas mulas, parte em direção a Ágordo, a três quilômetros de distância, à esquerda do rio Cordevole.

Adeus, aldeia natal! Adeus, La Valle! Adeus, igreja de São Miguel, onde todos os que partem foram batizados! Adeus! Adeus! Deixam a aldeia natal O carreteiro dá o último estalo de chicote e … Adeus, La Valle!

E aqui principia a odisseia dos pobres exilados voluntários! Após três quilômetros de viagem, a carreta, com sua carga humana, chega à cidade de Ágordo, onde se junta aos cinco chefes de família que se haviam adiantado algumas horas a fim de, na prefeitura, prover-se dos
passaportes e de outros documentos para a viagem.

Ágordo, capital do Mandamento, encontra-se à esquerda do rio Cordevole, situada em um largo vale, circundada por altíssimas e brancas montanhas, cobertas de gelo e neve perpétua, aos pés das quais [vicejam] belas e verdejantes colinas com extensos prados e bosques de abetos, lariços, castanheiros e carvalhos.

O histórico escritor Edmundo De Amicis, ao entrar naquela cidade pelo vale do Cordevole, expressou-se entusiasticamente com a seguinte frase: Oh belo, pitoresco e paradisíaco Vale Agordino!

Ágordo possui famosas minas de chumbo sulfuroso argentífero, de cobre, de vitríolo, de sulfato de ferro. Sede de uma escola montanhística.

Vista das montanhas que circundam Ágordo.

Depois de breve parada em Ágordo, a caravana prossegue pela estrada principal pelo vale do Cordevole, ora à esquerda ora à direita, atravessando-o sobre pontes rústicas de madeira. A estrada é boa; em certa localidade está escavada na rocha viva da montanha que se precipita no rio.

Às cinco horas, pequena escala na localidade denominada Alla Stanga, lugar onde, em outros tempos, o viajante devia pagar o pedágio (taxa), para chegar à outra margem do rio.

2.1 Chegada a Lentiai e parada

Primeira parada depois de quarenta e quatro quilômetros de viagem. Às seis da tarde, os nossos retirantes chegam a Lentiai, aldeia à esquerda do Piave, rio que nasce nos montes do Cadore (Vêneto) e desemboca no Adriático, em percurso de duzentos e vinte e dois quilômetros.

Na manhã do [dia] 22, os nossos, acordados a tempo, pagam a hospedagem e – atrelados ao carro os quatro animais, e como a estrada era boa – acomodados em seus lugares tomam a estrada para Feltre, antiga cidade da província de Belluno.

2.2 Chegada a Feltre

Às oito horas da manhã, o carro, com sua carga, entra na antiquíssima cidade de Feltre. Parada de uma hora para a refeição matinal.
Esta bela cidade se eleva sobre uma graciosa colina; cidade com ruas limpas e bem calçadas, com uma bonita e espaçosa praça e uma bela e artística fonte. Pátria de Vitorino de Feltre, célebre fundador italiano de centros educativos, professor de Retórica, filósofo, educador e filantropo; pátria também de Panfilo Castaldi, tipógrafo, a quem é atribuída a invenção dos caracteres móveis para a impressão em 1398.

Feltre, cidade dos quatro “efes”, que significam: Feltre Foi Fabricada Forte. É sede principal do Circondario da província de Belluno e conta quinze mil, duzentos e quarenta e três habitantes.

Às nove horas e pouco, parte-se de Feltre em direção a Quero, Fener e Onigo. Aqui, deixa-se o Piave à esquerda, e seguindo cerca de sete quilômetros pela ótima via provincial, ao sul, chega-se a Cornuda, junto às faldas do monte Montello e à esquerda do monte Grappa. Em Cornuda, os nossos fizeram uma rápida parada, para recobrar as forças e abeberar as mulas, bastante cansadas. Nesta localidade, é necessário abandonar a estrada estadual e tomar, à esquerda, a municipal, com destino a Bassano. Passa-se por Ásolo e depois de três horas chega-se a Bassano del Grappa.

Passam por uma estrada bastante ruim; o tempo, contudo, é bom, ainda que seja inverno. Prosseguem por Maser, San Zenone e Romano d’Ezzelino e, às cinco horas [da tarde], avistam os campanários de Bassano.

2.3 Chegada a Bassano

Cidade-capital do Circondario, província de Vicenza, às margens do Brenta, com cerca de dezesseis mil habitantes e muitas indústrias, onde Bonaparte alcançou uma vitória sobre os austríacos em 1796.

Os nossos entraram na cidade às sete horas e trinta minutos da noite. Como o carreteiro conhecia a cidade, dirigiu-se a um albergue conhecido. O hospedeiro acolheu os nossos viajantes com cortesia e modos gentis. Fez preparar um ótimo jantar para os nossos cansados e debilitados viajantes; mandou ainda preparar camas macias, em que logo se deitaram. Uma vez que, de Bassano a Vicenza, o percurso é de aproximadamente trinta e cinco quilômetros, os nossos, acordados em tempo e ainda que não de todo repousados, e as crianças estonteadas por vestirem-se fora de hora, estão todos prontos para a partida. Paga a conta, as mulheres e os filhos já sentados nos seus lugares; às sete horas, o carro já está em viagem pela estrada provincial em direção à ponte do Brenta e da cidade de Maróstica, onde chega depois de um percurso de sete quilômetros. Maróstica tem uma população de aproximadamente cinco mil habitantes. Aqui, uma pequena parada e segue-se por Sandrigo, penúltima etapa antes de chegar à cidade de Vicenza, que será o término, na Itália, para aquelas cinco famílias, da viagem em rústico carro puxado por mulas.

Ainda cerca de quatorze quilômetros de estrada em direção ao sul, costeando pequenos rios tributários do rio Bacchilione, e estará terminada a viagem de mais ou menos cento e quarenta e quatro quilômetros – em rústico carro puxado por quatro velhas e magríssimas mulas – de La Valle Agordina, província de Belluno, a Vicenza.

2.4 Chegada a Vicenza

Alta noite, o carreteiro Tamea conduz o seu carro com carga humana e bagagens a uma cocheira, de propriedade de um seu conhecido. Naquela estrebaria, os nossos emigrantes acomodaram-se como puderam e passaram as primeiras horas da noite.

Vicenza, capital da província do mesmo nome, cidade antiquíssima, foi destruída por Alarico I, rei dos visigodos, que devastou o Oriente (376) e invadiu a Itália (401); foi vencido por Stilicone em Verona, reinou sobre o Império do Ocidente e em Pallanza (403). Em 410, como primeiro invasor bárbaro, tomou e saqueou Roma. Preparava-se para entrar na Sicília, quando morreu em Cozenza, durante o assédio da mesma (411). Mais tarde, foi saqueada e devastada por Átila, rei dos hunos, chamado o Flagelo de Deus, em 452. Caiu depois sob o domínio
de Ezellino da Romano, tirano execrado de Verona e de Pádua, chefe dos gibelinos na Itália e vigário do Imperador Frederico II. Fez perecer mais de cinquenta mil pessoas. Foi três vezes excomungado. Feito prisioneiro, foi conduzido ao castelo de Sancino (na província de Cremona), onde morreu, recusando qualquer alimento e lacerando as próprias feridas, em 1259. Dominada ainda pelos Scala, foi, finalmente, conquistada por Veneza (1404), com quem divide a sorte até nossos dias.

Os nossos emigrantes, cansados, já estavam nos braços de Morfeu, deus do sono, quando foram acordados. Imediatamente recolhem as bagagens e deslocam-se à estação ferroviária, pois eram duas horas da madrugada, e o trem partiria às três horas. Os nossos, a contragosto e inseguros, chegam à estação. São introduzidos em uma vasta e fria sala, onde outros emigrantes do Vêneto esperam a hora do embarque, como os nossos, a fim de partir para Gênova. É o dia 24 de janeiro.

Depois de mais ou menos uma hora de espera, com os filhos nos braços ou cochilando junto às suas mães, chega a hora e a ordem de embarcar. Às quatro, a máquina dá o último apito e parte. Com o movimento do vagão, as crianças adormecem novamente.

2.5 Chegada a Verona

Verona, cidade fortificada sobre o Ágide, o mais importante rio do Vêneto, capital da província homônima. Principal fortaleza do Quadrilátero, teve sempre uma grande importância militar. Colônia euganea, com a queda do Império foi a capital do reino dos godos, de alguns reis longobardos e do rei franco Pepino.

Possui o famoso anfiteatro de Veronese (insigne pintor Caliari Paolo, chamado O Veronese). Produz cereais, vinhos, sedas, gado, galináceos, frutas.

Depois de uma parada regular, o trem parte novamente e segue por Peschiera, cidade ao sul do lago de Garda, passa por Dezenzano e Brescia, cidade capital da província homônima, que possui um castelo fortificado sobre uma colina, fechado em muros, que já mereceu o nome Falcão da Itália, porque defendia a cidade. Pátria de Arnaldo, Tartaglia, Moretto, Bonfadio, Ugoni, Gabriele Rosa, Zanardelli, etc.

Indústria ativíssima, célebres instalações para a transmissão de energia elétrica, forte em fiação, lanifícios, tecelagens, cotonifícios, curtimento de peles, fabricação de seda, armas, fundição (grande oficina ou depósito de ferro e anexo), fábrica de papel, jazidas de mármore, fábricas de laticínios, pastifícios, destilarias, pedras litográficas etc. Cidade de cerca de cem mil habitantes. Em 1849, resistiu heroicamente, onze dias, ao feroz general austríaco Haynau, que, depois de tê-la bombardeado, submeteu-a, a ferro e fogo! ao modo alemão!

2.6 Chegam à heroica Brescia

Após uma parada de cerca de meia hora, o trem se põe novamente a caminho. Os nossos, pelas janelinhas, admiram a bela e fertilíssima zona rural e as planícies da rica Lombardia, Treviglio, Cassano D’A., onde se atravessa o rio Adda e, por volta das quatro horas da tarde, [o trem] entrava na estação do leste da grande, industriosa e histórica cidade de Milão, a capital moral da Itália!

O autor destas simples notas de viagem, para dar também um certo realce à leitura, quis acrescentar-lhe algumas notas históricas e algum insípido comentário a respeito das principais cidades e povoados percorridos, dos quais ele conhecia também um pouco a história.

No percurso de aproximadamente duzentos quilômetros de trem, de Vicenza a Milão, os nossos se comprazem em admirar aqueles belíssimos e variados panoramas de aldeias, cidades, campos cultivados, vales, rios, propriedades rurais, hortas, jardins, obras de arte, antigas e modernas, graciosas colinas coroadas de igrejas, campanários, mosteiros, palácios, torres, castelos, que ora mostram ora escondem os seus muros, entre bosques de ciprestes, pinheiros e lariços, que, com os seus grandes contrastes nas cores e nos desenhos, dão à paisagem
uma harmonia indescritível.

Milão, Mediolano dos romanos. Em 1395, sob o senhorio dos Visconti, dos quais passou para os Sforza em 1450, depois à Espanha em 1555, por fim, à Áustria em 1706. Fez parte do Primeiro Reino da Itália em 1805, sob Bonaparte; depois, do Reino Lombardo-Vêneto, novamente sob o odioso domínio austríaco em 1814 e, finalmente, da Itália em1859.

Aqui, os emigrantes tiveram a oportunidade, aproveitando a parada de algumas horas, de poderem visitar algumas igrejas, entre as quais o artístico e belíssimo Duomo, dedicado ao patrono da cidade, Santo Ambrósio, a galeria Vitório Emanuel II, o Teatro Scalla, o Arco da Paz, a Estação Central, o Hospital Maior, o Cemitério Monumental, a Arena e rapidamente alguns museus e jardins públicos. Seppo Dall’Ega, além de um livro, A história de Nero, comprou uma fogaça (o famoso panetone de Milano), castanhas assadas, e se dirigiram à estação, porque era tempo. Às cinco horas da tarde, o trem já está em movimento e parte para Alessandria della Paglia e, depois, em direção a Gênova.

2.7 Em Alessandria

A certa hora da noite, o trem chega a essa cidade, porém não se desembarca. Alessandria degla Paglia recebeu este nome em honra ao Papa Alexandre III, então reinante. Fortaleza de primeira ordem, onde Garibaldi foi encarcerado em 1867.

Na manhã do dia 25, o trem ultrapassa os confins do Piemonte e entra na região da Ligúria, passa por Novi-Ligure, por Serravale e ainda por Bolzanetto, Rivarolo e Gênova.

De Serravale de Scrivia a Gênova, ao sopé dos montes Apeninos, há uma série de túneis mais ou menos longos.

2.8 Chegada a Gênova

Eis, finalmente, os nossos exilados, que, de cinco famílias que eram até Vicenza, chegam a esta cidade mais de vinte, vindas do Friul, Treviso, Belluno e Vicenza.

Antes do meio-dia, o trem entra na grande estação da Soberba. As nossas cinco famílias desembarcam do comboio, saem da estação e passam por uma praça onde foi erigido um belíssimo e artístico monumento, todo de mármore, ao descobridor do Novo Mundo, Cristóvão Colombo, de quem Gênova é a pátria. Os nossos são conduzidos a um hotel, chamado Via Regina, onde são alojados provisoriamente.

Sigamos um pouco a história: Gênova, cidade da Itália, capital da província homônima. Sua origem é completamente desconhecida. Destruída por Magone, irmão de Aníbal, foi submetida, com a Ligúria, a Roma.

Com a queda do Império, mantém-se livre. Constitui-se em República no século XI e estende seus domínios sobre a Rivera, alguma parte da Sardenha e à Córsega. Lutou – primeiro contra Pisa, depois contra Veneza – até que caísse sob o senhorio da França (1458), depois dos marqueses de Monferrato e, enfim, dos duques de Milão.

Recuperou a liberdade em 1528, conservando a própria constituição até 1796, época em que os franceses a ocuparam. Foi anexada ao império francês em 1805. Unida, em 1815, ao reino da Sardenha, Gênova seguiu, sempre, seu destino. Fortaleza de primeira ordem, está situada – em forma de anfiteatro – em torno de um amplo porto, que é o principal da Itália..Grande centro comercial; muitas indústrias. Ricas igrejas, suntuosos palácios justificam-na ser chamada A Soberba. Produções: veludos, sedas, pastifícios, chapelarias, conservas de frutas, rendas, licores, vinho, óleo, frutas, flores, legumes. Célebres estaleiros navais, siderurgias, fábricas de móveis, de linhos, sedas, sabões, velas etc.

Os nossos viajantes, especialmente as mulheres e os filhos, estão como que atordoados pelo contínuo vaivém dos pedestres e veículos de toda a espécie, o gritar dos mercadores ambulantes que vendem fretas, quinquilharias, tecidos, jornais etc., o luxo do ambiente, das pessoas, das casas, dos palácios e de cada coisa que os rodeia.

A cidade é chamada A Soberba, pelos seus altos edifícios, monumentos construídos totalmente de mármore de diversas cores, de belíssimo efeito. Aqui, qualquer construção, seja pública ou particular, grande ou pequena, de rico ou remediado, é feita exclusivamente de mármore.

Gênova, pátria do imortal descobridor do Novo Mundo. Dos Doria, ilustre família que deu doges, papas e grandes capitães, entre os quais é citado Andrea, grande estadista e o mais célebre de todos, como capitão de mar. Em 1519, foi nomeado Almirante pelo Pontífice Clemente VII e desbaratou a Armada Imperial, comandada pelo vice-rei Lamoia. Gênova lhe erigiu uma estátua com a inscrição: Ao Pai da Pátria, 1468-1560.

Pátria também de Giovanni Battista Perasso. 1729-1781. Jovenzinho herói, denominado Balilla, genovês que primou com a histórica frase Que a rompa! começando o valoroso combate, depois do qual os austríacos foram expulsos de Gênova (1746).

Os nossos exilados, depois de três dias de permanência no albergue, quase no centro da cidade, por ordem do Inspetor da Imigração, Sr. De Bernardi, em vista da morosidade para a partida dos emigrantes e, certamente, também por outros motivos, os fez transferir para fora da cidade, pois que ele previa que a sua permanência pudesse se prolongar por alguns meses.

2.9 Entre as colinas lígures

Assim os nossos viajantes, na manhã do dia 28 daquele mês, são transportados por meio de carros, por certa estrada em direção de Rivarolo-Lígure, por cerca de sete quilômetros ou mais e a cinquenta metros do nível do mar, lugar denominado Molassana, de onde se admirava um esplêndido panorama da cidade abaixo, com o seu grandioso e movimentado porto em forma de anfiteatro.

A localidade de Molassana está diante de uma vasta e bela praça. Os nossos foram alojados em um amplo salão e em vários cômodos de um grande edifício de dois pisos, cujo proprietário ou administrador tem o nome ou sobrenome de Sana.

Os nossos, naquele amplo abrigo, perguntavam uns aos outros quanto tempo passariam naquela localidade. Já faziam os mais estranhos comentários sobre o futuro e a interrupção da viagem. Nesse meio tempo, as poucas economias iam diminuindo. É verdade que, do dia da chegada a Gênova, a despesa da alimentação necessária para a manutenção dos emigrantes estava a cargo da Comissão Emigratória, e o nosso fornecedor Sr. Sana proporcionava aos seus recomendados emigrantes uma alimentação magra e deficiente. Por isso, no fim de
cada refeição, os filhos, as crianças procuravam sob a mesa se algumas migalhas de pão ou de outro alimento tivessem caído que prontamente recolheriam.

Seppo Dall’Ega, que conhecia aquela cidade e arredores por ter estado mais vezes trabalhando em sua profissão, sabia que naqueles lugares, isto é, nas redondezas, havia conventos de bons irmãos religiosos que, para o próximo necessitado, não deixavam de praticar voluntariamente a terceira virtude teologal, a caridade. Ainda que o Dall’Ega e os companheiros fossem adversos ao pensamento da mendicância – a que não eram acostumados – mesmo na penúria, e não podendo ocupar-se com seu trabalho profissional ante a dúvida de que, de um dia para outro, viesse a ordem de partida, aconselharam seus filhos a percorrerem os arredores em busca de chicória selvagem – que havia em abundância naquelas colinas – e outras ervas comestíveis.

Dá-se o caso que um dia os nossos jovenzinhos passassem perto de um convento em que a uma janela estava um religioso, o qual, vendo aquela meia dúzia de esfarrapados, dirigiu-lhes a palavra, dizendo-lhes: queridos filhinhos, aonde vão vocês e o que querem? Certamente têm fome, esperem que eu desço! [Foram] introduzidos os nossos meninos, muito constrangidos, em um amplo salão, onde havia uma longa mesa com cadeiras ao redor. Rapidamente, o religioso que os introduziu fê-los sentar e, depois, outro, em pouco tempo, trouxe uma terrina com sopa de ervilhas, batatas, verduras e cenouras com massa que, pelo aroma, era uma maravilha. O bom religioso – se não me engano era da ordem do Pobrezinho de Assis – convidou-os a sentar.

Eles, pouco a pouco, com timidez, obedeceram. Foi dada uma colher a cada um, e o religioso convidou-os a servirem-se da própria sopeira. Assim, com a fome que tinham, em pouco tempo deram fim não a uma, mas a duas sopeiras daquela magnífica sopa. É o caso de dizer: “Bendita aquela tigela que sete mãos rapam”.

O bom religioso, depois de saber que eram filhos de emigrantes e que estavam alojados no outro lado da montanha, em uma grande habitação, e que o fornecedor da comida, um certo Sana, dava-lhes comida escassa e deficiente, e que seus pais haviam terminado o dinheiro para suprir as necessidades do dia a dia e que, com vergonha e não habituados à mendicância, ainda que pobres, e no país que involuntariamente abandonavam, não podiam ficar por causa da escassez de subsistência e por isso deviam abandonar a pátria e, com tristeza, emigrar para o Brasil em busca de melhor sorte, e que não sabiam quantos dias teriam de passar em casa de Sana, o bom frade comoveu-se com tal realidade e disse aos nossos pequenos emigrantes que poderiam retornar dia sim, dia não. Depois dos agradecimentos, alegremente se retiraram.

Na volta, os nossos quiseram tomar um atalho, pensando fazer o caminho mais curto, assim por uma viela de cabras viram, a certa distância, um grande edifício e, pensando que fosse outro convento, para lá se dirigiram.

Chegaram a um grande muro, que costearam até chegar a uma grande praça. Os nossos avançaram alegremente em direção ao alto e escuro edifício, acreditando ser um convento. Mas, qual não foi a surpresa, depois de poucos passos em uma curva, de encontrar-se de improviso com um arrogante soldado com o fuzil apontado e ameaçador a gritar: – Quem vai lá? Jesus, Maria! Em vez de um mosteiro, tinham chegado a uma fortaleza com enormes bastiões, guarnecidos de grossa artilharia.

A sentinela não precisou repetir aquela ameaça que, assustados e aos saltos [os meninos] precipitaram-se por uma viela, correndo a mais não poder, voltando-se de vez em quando para ver se o homem do fuzil estaria atrás deles, seguindo-os.

Depois de uma grande volta, subindo uma colina, ofegantes e cansados da corrida, pararam sobre uma elevação, e o mais velho da comitiva disse que, antes de cair novamente em uma fortaleza e ter desagradáveis surpresas com sentinelas, é necessário certificar-se muito bem.

Assim, com calma, tomaram a direção de uma bela estação de veraneio, com um simples, porém elegante casario, que não tinha bastiões nem torres e nenhum ar de fortaleza. Depois de um breve giro, chegaram à parte mais elevada nos arredores daquele risonho vilarejo, e se voltaram para o mar, isto é, para o amplo porto da Soberba. Que estupendo espetáculo! Que maravilha! Que panorama magnífico! No amplo porto, uma imensa e inumerável quantidade de mastros, velas, cordames, arganéus, chaminés, navios a vapor, barcos a vela, lanchas, barcos, navios de todos os tamanhos, cores e bandeiras de diversos países e nacionalidades.

Tanto a estranha aventura dos seis rapazotes, o humanitário procedimento dos bons frades, a surpresa e o espanto ao passar junto à fortaleza, a sentinela e o maravilhoso panorama do porto de Gênova deixaram impressões fortes que, à noite, depois do jantar, Dall’Acqua anotou no seu diário.

Naquelas belas e pitorescas colinas, profusamente embelezadas por elegantes vilegiaturas, com suas ricas plantações de videiras, laranjeiras, oliveiras, castanheiros e variadíssimas árvores frutíferas, se não fosse a preocupação da viagem, os nossos emigrantes ficariam de boa vontade, ainda que a alimentação fosse deficiente.

No dia 9 do mês de fevereiro veio a notícia de que, naquele dia, havia morrido o Papa Pio IX. Assim, Dall’Ega, com a esposa e os filhos maiores, desceram a montanha e se dirigiram à riquíssima igreja da Anunciação, uma das mais belas da cidade, para assistir às exéquias em homenagem ao defunto Pontífice Pio IX.

Depois das santas funções foram visitar o Jardim Público e os mais importantes monumentos: a Catedral de São Lourenço, edificada totalmente de mármore de várias cores, depois o grandioso porto, onde apreciaram o enorme movimento, a chegada e a partida dos colossais vapores transatlânticos, nacionais e estrangeiros; visitaram depois os ricos museus, os jardins zoológicos, o famoso e artístico Cemitério de Staglieno.

Oh, Gênova! Bela, magnífica e fortíssima cidade! Poucas ou nenhuma da Europa conta tantos e tão magníficos palácios quanto Gênova, entre os quais o Doria, Grimani, Spinola, Cattaneo, Negroni etc. Pátria do grande navegador Cristóvão Colombo.

Dall’Ega, um dia, retornando da cidade, ouviu um espocar compassado de mosquetaria no vale, à esquerda de quem sobe para Molassana. Quis verificar do que se tratava. Viu no vale de um riacho, paralelo à estrada que estava percorrendo e que vai desembocar na próxima e industriosa cidade de São Pedro de Arena, distante cerca de quatro quilômetros de Gênova, digo, à discreta distância das habitações, uma fileira de soldados da guarnição vizinha em exercício de tiro ao alvo. Quando chegou a casa, contou à família o que tinha visto e aconselhou os filhos a irem, no dia seguinte, ao lugar, depois do término dos exercícios de tiro, quando os soldados tivessem se retirado, pois, dos cartuchos deflagrados, ficariam no solo muitos pedacinhos de chumbo e ninguém impediria que os [meninos] os recolhessem e os levassem para casa, pois, um dia, poderiam ser de proveito.

Assim, no dia seguinte, os dois filhos maiores de Dall’Ega, conforme a instrução recebida, foram ao lugar indicado e puderam constatar com satisfação a quantidade de lascas e pedacinhos de chumbo que lá encontraram, de encher os seus bolsos que, do muito peso, ameaçavam destacar-se das calças. Em quinze dias, recolheram um belo saquitel.

Durante o tempo em que os nossos exilados ficaram em Molassana, teve lugar uma solene festividade cívica. O nosso Dall’Ega não anotou nem o dia nem o mês em que ocorreu a festa.

O motivo de dita festa foi a inauguração da linha urbana de bondes, à tração animal, com a chegada, no primeiro bonde, de Sua Majestade Maria Pia de Savoia, Rainha de Portugal e afilhada do falecido Pontífice Pio IX.

Naquele dia, Seppo tomou consigo os filhos maiores e os conduziu à cidade. Em uma praça central, havia muitos cidadãos de ambos os sexos à espera do primeiro carro de luxo que devia chegar de um momento a outro. Havia também em vários lugares bandas de música, civis e militares. Nas janelas dos palácios, nas ruas, tremulavam muitíssimas bandeiras italianas e portuguesas.

Em dado momento, as bandas musicais tocam a Marcha Real, que é executada por ambos os países irmãos; em seguida, uma forte descarga de artilharia dos bastiões da fortaleza e chega o primeiro carro de luxo, puxado por quatro soberbos cavalos, em cujo interior encontrava-se a ilustre Rainha Maria Pia, hóspede de Sua Majestade o rei da Itália Humberto I de Savoia, seu parente, e com ela vinha também seu ilustre séquito. O bonde real estava todo embandeirado com bandeiras dos dois países latinos.

Os hinos e as marchas das duas nações sucedem-se alternadamente.

Depois de muitos patrióticos discursos de vários e bravos oradores, muitos vivas aos dois povos irmãos e muitas marchas marciais e peças alegres, o numeroso povo pouco a pouco se dispersa, e os nossos Dall’Ega também subiram a montanha, chegando em casa na hora do escasso jantar.

O autor não marcou em que dia caiu o domingo de Ramos, dia em que, como bom católico, tomou consigo a mulher e os filhos e desceu à cidade, onde, na catedral de São Lourenço, assistiu à santa missa e ao evangelho.

Uma nota alegre foi ver a quantidade de belíssimos trançados de palmas, nas cores branco, vermelho e verde, laços de diversas cores trançados com raminhos de oliveira e de folhas de palmas em várias formas e cores. Os filhos não cansavam de admirar tanta beleza artística e fantástica.

Como o pai havia prometido aos filhos maiores que um dia ou outro os conduziria ao Quarto dos Mil, a seis quilômetros cerca de Gênova, assim, na quinta-feira da Semana Santa, depois das funções religiosas, com Luís e Ângelo, tomou a estrada de Nervi e em pouco mais de uma hora chegaram. Quarto é um pequeno porto, mas tem um grande e histórico nome, pois recorda que, dos escolhos de Quarto dos Mil em 6 de maio de 1860, zarpou Garibaldi, o herói dos dois mundos e os Mil para a expedição na Sicília.

Dall’Ega, que conhecia um pouco a história aventureira do herói da revolução italiana e que admirava com entusiasmo as suas épicas e patrióticas gestas, em pé, com os olhos sobre o mar permaneceu estático alguns minutos, depois voltou-se para os filhos e disse: Meninos, voltemos!

No retorno, passando por uma taberna, convidou os filhos a entrar, pois havia alguns dias que, para deslocar uma quantidade de madeira e outro material de construção em Molassana, ganhara algumas dezenas de liras, assim pôde ordenar um litro de vinho do lugar e porque já era meio-dia ordenou pão e castanhas assadas.

Foi um verdadeiro banquete. Pão, vinho e frutas! Um tanto alegres, os nossos, deixando a cidade à esquerda, [seguiram] por um atalho, através dos campos e, às duas horas da tarde, chegaram ao alojamento bastante cansados.

Na véspera de São Marcos, cerca de três meses da chegada a Gênova, os nossos exilados receberam a notícia de que no porto havia chegado o vapor no qual finalmente os emigrantes seriam embarcados no dia seguinte, dia 25 de abril, e que deveriam preparar-se a tempo com as caixas, baús e trouxas, enfim toda a bagagem, para as dez horas do dia seguinte, pois nessa hora chegariam os carros para o transporte dos pertences e das famílias ao porto de embarque.

Foi um verdadeiro transtorno para aquelas famílias. Porém, com um pouco de calma e um pouco por vez, acomodaram cada coisa e no dia seguinte, às dez horas, estavam prontos. Os carros também haviam chegado.

Capítulo 3 – 25 de Abril, São Marcos – Partida do Porto de Gênova

Na manhã do dia 25 de abril de 1878, às dez horas, os emigrantes, cerca de uma dezena de famílias, estão prontos para deixar sem desagrado o Sr. Sanna, que deixou aqueles míseros menos sãos e mal alimentados.

Aquela fila de carros e de homens de novo em marcha, [eles] pensativos, taciturnos, desciam em direção à cidade e ao porto de Gênova. Alguns, estupefatos, que não tinham nunca, como se costuma dizer, ultrapassado a soleira da porta, com lágrimas nos olhos pensavam na incerteza do futuro; quase todos estavam no fim de seu dinheiro; mais do que um, havia tempo, tinha terminado suas escassas economias.

Alguns davam-se ares de alegria, pensando que talvez se aproximasse o término de suas atribulações.

Pobrezinhos! Estavam no princípio.

No porto de embarque de Soberba, ao meio-dia e com o sol a pino, sentados sobre sacos, baús e caixas, esses míseros devoram o seu escasso pão seco e algumas castanhas com água.

Às duas horas, por meio de barcaça, os nossos, com seus pertences, são conduzidos a um grande navio a vapor, de cuja chaminé saíam grandes rolos de negra fumaça, a bordo do qual havia também outros emigrantes, cá e lá, de forma desordenada, na coberta do vapor, cujo nome, se não me engano, era San Pietro. Os emigrantes vagueavam na coberta do navio, olhavam-se uns aos outros sem se conhecerem. Os nossos foram empurrados a um canto na confusão, até que puderam unir-se, família com família, com seus pertences.

Enquanto isso, os marinheiros estendiam toldos para salvar aqueles míseros dos ardentes raios solares. Às três horas, um agudo apito anuncia a próxima partida do vapor.

3.1 Adeus, Pátria

Eis que o San Pietro dirige a proa na direção do poente, passa perto do farol. Então os exilados voluntários, malgrado seu, obrigados ao desterro por não terem os meios para a manutenção das próprias famílias, devem abandonar a pátria amada, com os olhos em pranto e o coração angustiado. Esforçam-se, com o lenço na mão, para enxugar os olhos, velados por copiosas lágrimas, e dar o último e extremo adeus à Pátria!

Depois de uma hora de viagem, uma vez que, dos nossos, pouquíssimos sabiam o que era o enjoo do mar, começaram a sentir um mal-estar, certos distúrbios e então, um após outro, na coberta do vapor, apoiados [no parapeito] lançavam ao mar e aos peixes aquilo que haviam engolido algum tempo antes.

A noite foi péssima para os nossos doentes, visto que o vento fez balançar fortemente o navio.

Na manhã do [dia] 26, o mar havia se acalmado e os pobres enfermos, pouco a pouco, se restabeleceram.

Ao toque da sineta, os passageiros subiram à coberta, onde foram servidos de café e biscoitos e com o ar matinal e primaveril do Mediterrâneo, em pouco tempo, readquiriram a primitiva energia e saúde.

3.2 Chegada a Marselha

Cerca de vinte e quatro horas depois de navegar em direção ao poente, [surge] a encantadora e belíssima Rivera lígure, à direita de quem navega, com as suas incomparáveis vilas, ricos, artísticos e floridos jardins, com uma costa de cerca de cento e setenta quilômetros em território italiano, até Ventimiglia, última cidade da Península. Depois, o vapor passa ao largo de Nice, pátria do herói italiano Giuseppe Garibaldi, e às duas horas da tarde está diante do grande porto de Marselha, onde, depois de meia hora, lança as âncoras. Marselha está
situada na desembocadura do rio Ródano, que nasce no Valais (Suíça), banha Lyon e desemboca no golfo de mesmo nome na França. [No dia] 26 de abril, os nossos são desembarcados e conduzidos através do grandioso porto e acomodados em um grande edifício de diversos pavimentos, em construção.

Os nossos, estupefatos por essa nova interrupção inesperada, pensavam, talvez, em outra estadia de três meses, como em Gênova. Não sabiam o porquê de terem abandonado a via marítima pela terrestre! Como assim! Por qual direção seriam enviados e conduzidos ao Brasil? De qualquer modo, o melhor é sujeitar-se ao destino. Entrementes, Seppo tomou consigo o filho Luigi e percorreu algumas vias mais movimentadas, como também o porto, e percebe o enorme movimento mercantil da cidade que disputa com o comércio do porto de Gênova.

Como a estação ferroviária estava situada perto do edifício dos Emigrantes, esses souberam que a partida seria efetuada no dia seguinte, dia 27, às nove horas da manhã. Souberam que a rota a seguir seria pelo vale do rio Ródano, ao norte, depois ao oeste pelo Sena e Paris, depois, seguindo pelo poente até o Havre, no canal da Mancha, onde, naquele porto, seriam embarcados com destino ao Brasil. Meu Deus! Por que toda essa volta? A resposta é que é preciso sujeitar-se e, boa noite!

Assim, depois do desjejum do dia seguinte, à hora marcada, os nossos eram embarcados em vagões discretamente confortáveis.

Antes da partida, naquele dia, era 27 de abril, Seppo adquiriu pão e castanhas. Pelas duas horas da tarde, o trem entrou na histórica cidade de Avinhão, residência dos papas de 1309 a 1376, ou seja, pelo espaço de sessenta e sete anos.

Os nossos debruçam-se nas janelinhas e admiram a cada momento o vasto panorama e o interminável vale do majestoso rio Ródano.

Viaja-se de dia e de noite. Os pais estão preocupados, pois o pão e as castanhas terminaram, e os filhos choram porque têm fome. Seppo lembra-se que na valise, ainda em Gênova, havia posto, além de castanhas, alguns pães pretos. De fato, encontra ainda dois, bastante duros, mas que, cortados em pedacinhos, os nossos famintos comem com avidez.

O trem segue sempre ao norte, passa pelo Delfinado. Em Lyon, deixa o rio à direita e continua pelo Saone, afluente do Ródano, segue pelo Franco-Condado e a Borgonha, depois pela cidade de Dijon, onde o general Garibaldi conquistou a vitória aos 21, 22 e 23 de janeiro de 1871. Continua por Auxerre e passa pela rica região de Champagne, no coração da França, onde se produz o famoso vinho espumante champanhe.

Depois de uma longa, incômoda e tediosa viagem pelo noroeste da França e tê-la atravessado quase toda, passando por belíssimas paisagens, campos bonitos e floridos, vilas e locais de veraneio, elegantes aldeias e cidades, hortas, chácaras e jardins tecnicamente cultivados e conservados – uma verdadeira beleza – o comboio continua a bufar e segue seu percurso, passa por Fontainebleau, onde Napoleão Bonaparte abdicou da coroa imperial em 1814.

Finalmente, a certa distância, veem-se as primeiras belíssimas construções da capital francesa, Paris.

3.3 Chegada a Paris

Por volta das nove horas da manhã, o trem entra bufando na bela Paris, na estação leste.

Aqui, o nosso Dall’Ega, certamente por esquecimento ou descuido, não diz o dia do mês, mas deve ter sido o dia 29 ou 30 de abril.

Desembarcados do trem, os nossos emigrantes são conduzidos, com suas bagagens, a um salão próximo.

Ali, restaurados da melhor forma possível, esperam outra condução. Cerca de três horas depois, chega um enorme ônibus de dois andares, puxado por quatro fogosos cavalos, em que os nossos são embarcados, e a bagagem em outra condução. Entrementes, o tempo se encobre e principia a chover.

Os relâmpagos e os trovões estrepitosos se sucedem sem interrupções. Os cavalos, sob a boa direção do condutor, tomam a estrada a galope sob um dilúvio de chuva. Das janelinhas fechadas, os nossos apreciam aquelas belas e espaçosas ruas, retas e limpas, e bem pavimentadas, elegantes e floridos jardins com belíssimas e artísticas fontes de refinada beleza. Grandiosos e monumentais palácios de pedra marmórea.

Monumentos artísticos de maravilhoso efeito. Enfim, com razão é chamada a Cidade Luz. Depois de um percurso de alguns quilômetros, os nossos chegam à estação ferroviária do ocidente, onde um trem esperava a chegada dos emigrantes.

3.4 Partida de Paris

Apenas chegados, embarcam, e às quatro horas da tarde, ainda sob uma chuva torrencial, o trem parte e segue pelo vale do rio Senna, em direção ao Canal da Mancha. Passa por Nantes, Rouen, lugar de inúmeros e grandes cotonifícios e de muitas outras indústrias.

 

3.5 Chegada ao Havre

Às seis horas aproximadamente, do dia 2 do mês de maio, o trem entra na estação do grande porto comercial – o segundo da França, de Havre, na Mancha, com cerca de cento e sessenta mil habitantes. Apenas chegados, os nossos – bastante cansados pela longa viagem através da França inteira – são conduzidos como ovelhas em um vasto salão, com suas bagagens. Estão como que atordoados aqueles míseros e, tanto mais, porque não podem responder às perguntas dos passantes citadinos e dos empregados [responsáveis] pelo atendimento, pois não compreendem a língua.

Cerca de uma hora após a chegada, são chamados para dirigir-se a um corredor contíguo, onde uma longa mesa, com bancos aos lados, esperava aquele faminto grupo para o jantar. Uma fileira de jovens preparava as tigelas, colheres e sopeiras cheias de odorosa e saborosa sopa com feijões, verduras, massa e batatas com carne. Quanta bondade de Deus! Sejam dadas graças ao Altíssimo! Depois de tanto tempo, os pobres exilados estão sentados à mesa, com toalhas e tigelas e pratos limpos e, não com a tigela que sete mãos rapam, como no convento dos bons capuchinhos de Gênova. Acompanhava o saboroso sopão também pão branquíssimo. Às oito horas recolheram-se, e mesmo que deitados sobre suas bagagens, cada família dormiu com gosto até o dia seguinte.

As refeições, ainda que só duas vezes ao dia, eram abundantes e substanciosas. O inconveniente era não poder entender-se, pois, para eles era desconhecida a língua francesa.

O porto de Havre é formado de vários estaleiros, ou docas; de lagos, fechados por grandes pontes de ferro, giratórias, que, quando necessário, abrem-se e deixam entrar ou sair os navios e onde ficam ao abrigo das tempestades e da fúria do mar.

Os nossos viandantes, nos cinco dias que ficaram nessa cidade, passaram o seu tempo a pescar com anzol, depois fritavam os peixes em óleo e os comiam com o pão sobrado das refeições. No [dia] 5 do corrente, os emigrantes foram avisados que sua partida para o Brasil ocorreria na manhã do dia 7 e que estivessem preparados. De fato, naquela noite entrou no cais um grande vapor de nome Rivadavia.

Na manhã do dia 7, às dez horas, os nossos, com seus pertences, são embarcados e colocados em compartimentos apropriados, família por família, no grande transatlântico. Às onze horas, o sino de bordo, com seu som agudo, chama os passageiros para o rancho do meio-dia.
Em seguida, um empregado da cozinha serve, a toda aquela turma, gamelas, colheres, garfos e sopeiras. Em pouco tempo, os nossos são servidos de saborosa sopa, carne e biscoitos, o mesmo que têm os marinheiros a bordo.

Vapor Rivadávia em 1923

Depois de um último apito, o navio se vira e, com grande admiração dos emigrantes, a ponte se abre em duas e deixa passar aquele colosso que toma a direção do Canal da Mancha.

3.6 Adeus França

O navio toma o rumo, em seguida, para o Atlântico, deixa a França, pátria de Joana D’Arc, célebre heroína d’Orléans, de São Luís IX (1226-1270) e de Napoleão Bonaparte, imperador dos franceses. Passa por Cherburgo – onde faz suas provisões – cidade marítima e grande porto militar da França no oceano. Segue pelo sul, passa ao largo do golfo de Biscaia e, depois de algum tempo, costeia o cabo Finisterra (Espanha), depois segue a costa de Portugal até a embocadura do rio Tejo, onde, à direita daquele rio, encontra-se a cidade de Lisboa, capital de Portugal. Grande porto de guerra; baía esplêndida. Em 1755, um terremoto destruiu parcialmente a cidade.

3.7 Chegada a Lisboa

O Rivadavia, depois de alguns dias de viagem borrascosa (Seppo Dall’Ega não marca o dia da chegada a Lisboa), lança âncoras naquele vasto porto. Em frente, encontra-se a capital de Portugal. Cidade belíssima e vastíssima, de enorme movimento comercial.

Nas floridas e inumeráveis colinas que circundam a cidade, vê-se uma infinidade de moinhos de vento, isso quer dizer que é uma terra rica, que produz cereais em abundância.

Depois de uma parada de pouco mais de um dia naquele porto, o navio segue novamente pelo Oceano Atlântico, deixa as ilhas de Açores à esquerda, em seguida faz escala nas Ilhas Canárias, onde reina grande quantidade de canarinhos, de onde são originários. Aqui faz provisões de água doce e segue. Depois do almoço daquele dia, o tempo escurece, o mar torna-se revolto e ameaça uma próxima tempestade, veem-se somente água e céu. O agitar violento das ondas enfurecidas obriga os passageiros a descerem à coberta inferior.

A tempestade, no entanto, não tarda a manifestar seus incômodos, seus inconvenientes e nauseantes efeitos e suas consequências. Com o seu furor, põe tudo em desordem: caixas, baús, objetos de toda a espécie. Uma verdadeira convulsão, um inferno; ouvem-se gritos, urros, choros: alguns, com o rosário nas mãos, rezam; outros, estáticos, dominados pelo pavor, esperam ser tragados pelo terrível elemento. Viam-se, em toda a parte, jogadas no pavimento, mulheres, crianças e moças etc. rolarem desordenadamente com trouxas, gamelas, bolsas, livros de devoção, garrafas etc. Poucos havia, mesmo entre os homens, que não estivessem atacados de enjoo. Os esforços das crianças, mulheres e jovens para aliviar o estômago era um suplício. A alguns, acostumados e de compleição vigorosa, o enjoo do mar não causava efeito e não se impressionavam com o mal-estar dos emigrantes. Sabiam que aquilo passaria a seu tempo, com o retorno da bonança.

Àquele dia, outros mais ou menos incômodos sucederam-se. Depois de algum tempo, finalmente o céu clareou, e o tempo melhorou; assim também nossos doentes, pouco a pouco, restabeleceram as forças perdidas, e a saúde retornou. O vapor, entretanto, seguia por aquela vastíssima planura líquida, em meio somente a céu e água, seguido de peixes de toda a espécie e cores, grandes e pequenos.

Enquanto isso, o tempo passava, e os nossos emigrantes eram muito bem e humanamente tratados, tanto pelos oficiais, subalternos e marinheiros, que eram de uma seriedade e bondade que davam prazer. Os emigrantes, três ou quatro centenas, passavam bem. Entre os nossos agordinos, havia um grupo de cinco ou seis, de ambos os sexos, os quais, por distração, ou jogavam o trissete ou a bisca, ou, porque estavam em ambiente propício e harmonizavam bem no canto, passavam o seu tempo a cantar canções populares e patrióticas, com bela e melodiosa harmonia, que deixavam os bons franceses, tanto oficiais como subalternos, em curiosa atenção ao escutar aquelas suaves e melodiosas canções.

Ao ouvir aquele melodioso coro (pois os nossos agordinos eram verdadeiramente bons no canto), o Capitão, homem afável, fez subir à ponte de comando todos os nossos cantores, os quais eram os seguintes: Seppo Dall’Ega, Giovanni Cianello, Antônio e sua mulher Francesca Baluosa, Giovanni e sua mulher Luzia Begnù e Luigi Fasolo. Depois da primeira canção, que o Capitão e companhia apreciaram bastante, [o capitão] fez vir um ótimo e generoso vinho para os bravos cantores, os quais, excitados pelo saboroso bordeaux e pela bondade da oficialidade, retiraram-se, agradecendo, porém, um tanto eufóricos, ao Comandante e aos subalternos.

O capitão, que também conhecia e falava um pouco o italiano, convidou os nossos cantores para o dia seguinte, quando seria ultrapassada a linha do Equador, a apresentarem-se no mesmo lugar, ao anoitecer. No dia seguinte [não especifica a data], os nossos cantores estavam, à hora indicada, no lugar onde já se encontrava o comandante com outros oficiais e onde, sobre uma mesa, havia frituras, doces e várias garrafas de vinho e pão.

A hora em que o círculo maior da esfera terrestre estava igualmente distante dos dois polos, o Capitão estourou uma garrafa de champagne e ofereceu uma taça a cada um dos presentes, depois fez nossos cantores iniciarem uma canção, os quais escolheram a ópera Norma de Vicenzo Bellini, que foi muito aplaudida, tanto mais por ter o autor falecido em Puteaux, perto de Paris, em 1835. Era muito apreciado na França.

Depois de uma variedade de canções populares, [com os nossos] bastante alegres pela bela festa e o bom tratamento da oficialidade de bordo, terminou aquela genial e insólita manifestação. A bordo do Rivadavia, além de uma variada qualidade e quantidade de mercadorias, havia também grandes caixões de cebolas, que podiam ser vistas através das ripas. Tais cebolas, de bom tamanho, estavam, algumas, na iminência de sair pelos intervalos, entre uma e outra ripa que as continham. Em vista disso, dois ou três jovenzinhos espreitavam a ocasião de poder furtar uma para cada um; porém, um marinheiro, percebendo a intenção dos meninos, chamou-os junto a si e levou-os perto do caixão que continha as cebolas. Tomando algumas das maiores, distribuiu-as entre os que estavam presentes. Em vista disso, envergonharam-se da desonesta intenção de furto e levaram aos pais as cebolas recebidas de presente, com a intenção de não mais furtar. Os pais, que viram os filhos com aqueles bulbos, pensaram que os houvessem furtado e, com o cenho franzido, desafivelaram os cintos com a intenção de que as levassem imediatamente aonde as tinham apanhado; porém, no momento, apresentou-se aquele marinheiro que lhas havia presenteado, que, vendo a intenção dos pais, assegurou a inocência dos meninos. Assim terminou aquele pequeno incidente.

Em um domingo, como de costume, depois das quatro horas da tarde, as cinco famílias agordinas reuniram-se para o terço, às quais, muitas vezes, uniam-se também outras famílias na coberta inferior, com o canto de algum hino religioso em louvor a Deus e a Nossa Senhora.

Terminadas tais práticas, alguém lia ou a História Pátria ou um romance, outros jogavam bisca ou trissete, outros subiam à coberta para tomar o saudável ar vespertino.

Em um dia em que Anna, mulher de Seppo Dall’Ega, havia subido à coberta, viu um servente que tinha no braço um cesto contendo bolas de cor rosada as quais, em pedaços, colocava-as nos comedouros das ovelhas. Aproximou-se e perguntou-lhe, com gestos, se aquelas bolas seriam de queijo holandês; ele compreendeu e fez sinal que sim. Ela então fez sinal de que era bom para comer; ele lhe respondeu que cuidasse a fim de que os meninos não fossem aos estábulos surrupiá-lo às ovelhas, que esperasse que ele em breve voltaria com outro
que, embora um pouco deteriorado, era comestível. Depois de poucos minutos, o servente voltou e, não com pouco espanto, Anna viu-se com o avental cheio de ótimo e saborosíssimo (ainda que cortado em pedaços) queijo da Holanda, que levou rapidamente na coberta inferior e o fechou em uma caixa para o futuro.

Enquanto isso, o Rivadavia prosseguia a sua viagem com um tempo magnífico e os nossos viajantes, apoiados ao parapeito do navio, apreciavam o efeito das ondas marinhas contra o casco do navio e a corrida dos peixes delfins que hostilmente disputavam entre si as sobras que os cozinheiros atiravam ao mar.

No fim de maio (27), os marinheiros anunciaram que no dia seguinte o vapor chegaria ao primeiro porto do Brasil, ou seja, a Pernambuco, capital do estado homônimo. Porto de grande comércio; estado de fertilíssima produção de cana doce da qual se extrai o açúcar.

3.8 Chegada do Rivadavia a Pernambuco

O Império do Brasil, governado constitucionalmente e democraticamente por um Imperador (D. Pedro II de Alcântara), tem um território de vastíssimas extensões, oito milhões e quinhentos mil quilômetros quadrados, com uma população de cerca de vinte e oito milhões de habitantes. Conforme aviso, hoje, às onze horas da manhã, dia 28 de maio, o vapor deita âncoras no porto de Pernambuco. Aqui os emigrantes têm a ocasião pouco edificante de ver negros quase nus, os quais se atiravam ao mar com a cabeça para baixo, para disputar no fundo do mar, com a boca, a moeda que alguém jogava na água.

No dia seguinte, depois de feitas as provisões necessárias e recolhidas as âncoras, o vapor prossegue a sua viagem em direção ao sul, deixando a costa à direita. Depois de várias horas de navegação, o vapor entra no porto da Bahia.

3.9 Breve parada na Bahia

Bahia é o nome de um vasto e fertilíssimo estado a nordeste do Império do Brasil, cuja capital se chama São Salvador. Cidade histórica e de grande movimento comercial. Foi capital do estado, como ainda o é. Foi também a capital do Brasil colonial até 1763.

Nessa cidade, como também em Pernambuco, existem muitíssimos pretos, de ambos os sexos, provenientes da África, mal e escassamente vestidos. No Brasil, existe ainda a desumana lei da escravidão, lei que, em todas as repúblicas da América, seja do norte ou do sul, foi felizmente abolida há tempo.

 

Capítulo 4 – Chegada ao Rio de Janeiro

O Rivadavia continua sua viagem em direção ao sul.

Finalmente, no dia 4 do mês de junho de 1878, o vapor entra [no porto], às nove horas da manhã, para grande alegria dos nossos emigrantes, que pensavam estar se avizinhando o término de sua viagem, e ao mesmo tempo desgostosos por terem de abandonar aquele bom pessoal, oficiais e tripulação do vapor Rivadavia.

Que espetáculo admirar aquele magnífico e incomparável panorama da baía de Guanabara, porto da maravilhosa cidade do Rio de Janeiro, capital do Império do Brasil. Naquela noite, chegava de Gênova também o transatlântico italiano Italia, tendo a bordo mais de mil emigrantes, quase todos italianos. Aquele vapor partiu de Gênova um dia antes do vapor San Pietro, aquele mesmo que conduziu os nossos
emigrantes de Gênova a Marselha. O vapor Italia, de Gênova, pelo Mediterrâneo, fez escala em Barcelona, passou pelo estreito de Gibraltar e chegou ao Rio de Janeiro dez horas depois do Rivadavia. Os nossos estavam encantados e admiravam o belíssimo e magnífico porto, único no mundo por suas belezas naturais.

Vista da Baia da Guanabara no ano de 1907

Quando os nossos souberam que deveriam abandonar o Rivadavia e embarcar em outro vapor brasileiro, uma velha carcaça de nome Calderón, perderam o ânimo, pois acreditavam que o vapor francês os conduzisse ao Rio Grande, último estado no extremo sul do Brasil. Para eles, foi uma ilusão!

Assim, depois de uma feliz viagem de vinte e nove dias – tirando a borrasca dos primeiros, no início da viagem – na manhã do dia 5, com pesar, tiveram de transferir-se para o Calderón, em companhia de outros emigrantes desembarcados do vapor Italia, os quais nos fizeram a desagradável surpresa do presente dos imundos insetos piolhos, nojentos parasitas, pois, até aquele dia, os nossos tinham estado isentos de tal imundície.

Adeus Rivadavia, adeus senhores e bons franceses!

Assim, os nossos, ao meio-dia, estavam todos embarcados com aqueles que haviam chegado naquele dia – ao todo, cerca de mil e quinhentos emigrantes – os quais tiveram de descer à coberta inferior. Meu Deus! Que confusão de gente e de línguas! Todos naquele pavimento, acomodados desordenadamente, sem leitos e sem repartições para as famílias.

Os nossos prófugos, desencorajados naquela grande e negra carcaça, sem conforto e em uma horrível promiscuidade, pensavam no incerto futuro e olhavam silenciosos o belo e confortável Rivadavia, que pouco a pouco se distanciava até desaparecer totalmente – assim também com o distanciamento do Calderón, desapareceu a cidade maravilhosa, capital do Brasil, Rio de Janeiro.

4.1 Viagem para o Rio Grande do Sul

Finalmente, os nossos exilados voluntários, de muitas nacionalidades, idiomas e religiões, [encontram-se] apinhados, como sardinhas em barricas, na coberta inferior. Que horror! Os pais chamam os filhos, e esses, os seus pais e mães; os irmãos, as irmãs e vice-versa. Naquele porão, sem o mínimo conforto e com pouca luz, quase semi-escuridão, sem ar e sem precauções higiênicas, [são] tratados com aspereza e modos incivilizados por gente sem Deus e humanidade!

Assim, vão se acentuando as situações dolorosas dos míseros infelizes.

À noite, deitados sobre o pavimento, família por família, em todas as direções. De quando em quando, ouve-se a voz de uma mulher que recita o santo rosário, outra que procura aquietar a criança que, pelas picadas dos piolhos, não consegue dormir, outros, com tocos de velas, obrigam os mais arrogantes a suspender a tagarelice a fim de poder dormir.

Quanto durará esta viagem incômoda e maçante? A resposta é: – Paciência, que ainda é longa! Entretanto, a carcaça, com o seu insuportável ruído endiabrado, continua o seu lento andar, com alguns abalos que fazem pensar em um afundamento de um momento a outro. Contudo [eles] têm o consolo de encontrarem-se à sombra e proteção das leis imperiais da nova e hospitaleira pátria brasileira. Porém, esses voluntários prófugos, enquanto viverem, sempre terão no seu coração o espírito de amor à pátria abandonada, a Itália!

O nosso bom Edmondo De Amicis dizia, no seu livro Il Cuore, traduzido em quase todas as línguas do
mundo:
Amontoados como jumentos
sobre a gélida proa movida pelos ventos,
migram para terras inóspitas e distantes;
esfarrapados e macilentos,
atravessam os mares em busca de pão.
Vão, ignorantes de tudo, aonde os leva a fome,
para terras onde outra gente morreu;
como o desprezado cego e vagabundo
erra de porta em porta,
eles assim vão de mundo em mundo.
E. De Amicis

O maltratado e antiquado Calderón, com velocidade de lesma, fazia-se ao largo e aviava-se para o sul, em direção à Barra de Rio Grande.

Além do incômodo e anti-higiênico alojamento daquela carcaça, havia também o contínuo e nauseante balanço do navio que parecia dançar a tarantela napolitana… Além de tudo, foi preciso também a borrasca, que se formou na altura da costa dos estados de São Paulo, Paraná e Santa Catarina, tempestade que obrigou os emigrantes a permanecerem sob a coberta, com a angústia do enjoo e de suas consequências – que são mais fáceis de imaginar que descrever – pelo espaço de três ou quatro dias. Um verdadeiro inferno naquela Cloaca Máxima!

Finalmente, o vento acalmou-se, como também a tempestade, e o navio, jogando pra lá e pra cá, pôde entrar na Barra e chegar (salvo engano) no dia 11 de junho ao porto da cidade de Rio Grande, com alguma avaria de pouca importância.

4.2 Chegada ao porto de Rio Grande

Essa cidade está situada à esquerda e a pouca distância da barra e no começo da Lagoa dos Patos (Lago dos Patos) onde, à direita, se encontra a pequena cidade de São José do Norte. Essa lagoa é importante em volume de água doce e, de sul a norte, se estende por trezentos quilômetros além e tem quase setenta quilômetros de largura. Sua navegação é um tanto difícil por seus bancos de areia finíssima. No extremo norte, situa-se, à direita do lago e na embocadura do rio Guaíba, a cidade de Porto Alegre, capital do Estado. O porto de Rio Grande é de segunda categoria face aos inconvenientes da barra.

Finalmente, a carcaça Calderón deita âncoras, e os emigrantes, contentes por abandonarem aquele horrendo caixão avariado, são desembarcados e enviados a um subúrbio próximo à cidade, onde são confinados em um barracão a que chamavam Casa dos Imigrantes. São relegados em um salão completamente nu e bastante sujo, pois entravam e saíam à vontade as vacas e os cavalos, fosse dia ou noite.

Os nossos viram-se obrigados, com vassouras de ramos, a limpar aquele ambiente, privado de higiene e de limpeza. O ambiente é desolador, nem sequer divisórias ou repartições! Naquele salão, [com] aquela deprimente companhia, aquela mistura heterogênea de esfarrapados, ter de sujeitar-se e fazer uma bonita cara para um feio destino! Assim, para o melhor ou para o pior, aquelas pobres famílias devem procurar um canto para fixar a sua provisória morada. E, até quando?

Depois de mais ou menos uma quinzena de dias naquele fétido ambiente, onde era administrada, aos imigrantes, alimentação com escasso condimento e péssimo sabor, com parcimoniosa distribuição, vem novamente o aviso de estarmos prontos para partir rumo ao norte, isto é, para Porto Alegre. Salvo engano, devia ser o [dia] 26 de junho.

Assim, na mais completa confusão para reunião das famílias e suas bagagens, aquela longa fila de infelizes emigrantes, com o pensamento no incerto futuro, nos filhos e na pátria abandonada por força maior, com a cabeça inclinada e com mil pensamentos, dirige-se ao porto de embarque, onde um vapor [não identifica o nome] esperava a “carga humana”. São embarcados desordenadamente, mais ou menos como no Calderón, sem o mínimo conforto.

O vapor toma a direção de Porto Alegre. Depois de poucos quilômetros, de viagem, com assombro, notam na água uma longa faixa de uma cor estranha que atravessava a rota do navio. Souberam, em seguida, que aquela faixa não era outra coisa senão a divisão natural da água salgada do mar daquela doce da lagoa.

Depois de aproximadamente vinte e quatro horas de navegação por aquele longo lago, à direita, veem-se as primeiras casas da capital. Podiam ser dez horas da manhã. Aos poucos, o navio encosta na ponte de desembarque, onde os nossos desembarcam e são conduzidos à Casa de Imigração. Na branca praia, o vento empurrava para cá e para lá as ondas da laguna, onde, com os pés na água, viam-se as filhas de Cam, com escassa vestimenta a cobrir-lhes a pele enfumaçada. Aquelas filhas de Eva africana, estavam atentas ao seu serviço de lavadeiras e lavavam as suas roupas sobre um banco, pouco se importando das contínuas ondas que batiam nas suas negras pernas.

4.3 Desembarque em Porto Alegre

Como se disse, os nossos foram desembarcados e conduzidos a uma casa junto à praia. As ondas da lagoa e a correnteza do rio Guaíba batem contra seus fundamentos de um lado; do outro, está o jardim chamado Harmonia. A Casa da Imigração tem um aspecto bastante decente, e os nossos, aqui, têm um certo conforto, pois há repartições para cada família, com camas, ainda que rústicas. A alimentação é razoável e abundante.

No Jardim Harmonia existem flores, espinheiros e plantas silvestres e lá pastam as vacas e as cabras. A chegada deu-se mais ou menos aos 28 de junho.

A cidade, ainda que grande, tem poucos atrativos; meia dúzia de igrejas de estilo colonial; algum raro jardim aberto ao público e, … aos quadrúpedes, [são] raríssimos os monumentos. Pouquíssimas as obras de arte. A antiga e rústica igreja Catedral Episcopal, a Biblioteca Pública; o Palácio do Tribunal, que serve também de Prefeitura Municipal; o Teatro São Pedro, grande casarão com capacidade para cerca de três mil pessoas; o vasto e não concluído Mercado Público; uma Escola Militar; o Arsenal de Guerra e outros poucos edifícios de alguma importância.

Teatro São Pedro no ano de 1865

Mercado Público por volta de 1875

 

No porto, os navios devem ficar ao largo, e os mais modestos desembarcam ou embarcam seus produtos por meio de pontilhões pênseis sobre as paliçadas, onde encostam para executar as suas operações.

Eis, finalmente, os nossos prófugos voluntários, chegados à última cidade, a capital do estado do Rio Grande do Sul. Estado ao extremo sul do imenso território do Império, cujo regente é o magnânimo D. Pedro II, esposo da imperatriz italiana Dona Teresa, filha do rei Bourbon de Nápoles.

Quanto [tempo] deverão ficar parados nessa cidade? Ninguém sabe!

Sabem, porém, que eles estão destinados a seguir, pelo altiplano da região selvagem do interior do estado, a uma região pouco habitada por gente e a várias distâncias, para além de cem quilômetros, primeiro por via fluvial, depois, por caminhos na mata virgem, até o destino, às vezes por estradas e lugares inóspitos. As posições, os terrenos mais cômodos, mais férteis e de maior valor e rendimento foram colonizados, há cinquenta anos, por imigrantes alemães, os quais, por serem os primeiros, colonizaram as melhores, mais vizinhas e mais férteis posições perto da capital.

Assim, os nossos, forçosamente, tiveram de sujeitar-se a superar as montanhas através da selva virgem, a fim de alcançar os primeiros núcleos de Conde D’Eu, Dona Isabel, Campo dos Bugres (bugre, que quer dizer homem selvagem) e Barracão, já colonizados em parte por colonos italianos, há cerca de dois anos.

Além do café, pão e carne seca (charque), a diretoria da Imigração fornece-nos também a feijoada, acompanhada de uma mistura de farinha (de mandioca), farinha de um sabor insípido se comida pura, o que não se usa nessa terra, e que é fornecida em sacos, à saciedade. A tal farinha é produzida [a partir] de uma raiz chamada mandioca, que os emigrantes, a primeira vez que a viram e que a eles foi oferecida, pensaram que fosse queijo ralado e tiveram certa cautela em servir-se. Depois viram que os nacionais tomavam-na em grandes colheradas, então também esses os imitaram e fizeram uma densa papa com o caldo preto do feijão da mesma cor. Porém, quando se puseram a comer aquela mistura, acharam-na insípida, ficaram nauseados e a recusaram. [Como] o pão branco e a carne de boi eram fornecidos com parcimônia, os nossos, a contragosto, tiveram de acostumar-se à comida nacional, que, enfim, pouco a pouco, consideraram aceitável.

Em Porto Alegre, os nossos ficaram cerca de um mês e meio, até que um dia veio a ordem de partir. Nova confusão para os nossos juntarem suas coisas. Assim, em longa fila, esses exilados percorrem as longas pontes pênseis, chamadas em português “trapiches”, chegam ao vapor de embarque, vapor com rodas nos lados, cujo nome é União. Quando todos estão a postos, o navio, que é fluvial, [isto é], para navegar pelos rios do interior, parte pelo rio Caí, em direção à localidade chamada São Sebastião do Caí. Aqui, o nosso Dall’Ega não diz a data de partida de Porto Alegre, mas foi por volta da metade do mês de agosto daquele ano.

O vapor partiu pelas dez horas da manhã e adentra por uma região de bosques; nas margens vê-se somente mato virgem, com árvores seculares, cujos ramos avançam sobre a água escura do tortuoso rio. De vez em quando, uma casinhola, construída com torrões de terra e coberta com folhas de palmeira. Na praia, sobre uma rústica canoa, um pescador de cor morena, com o anzol em uma vara, procura pesca para alimentar cinco ou seis crianças da mesma cor. À porta do rancho, uma mulher está amamentando um bebê.

De vez em quando, o vapor dava um agudo silvo, sinal de chamada ou de parada, para o abastecimento de lenha ou para entregar e receber a correspondência postal etc. Vencida quase uma centena de quilômetros por aquele enfadonho e serpenteante rio Caí, finalmente pelas nove horas do dia seguinte, o União dava o aviso de chegada ao povoado de São Sebastião.

4.4 Chegada a São Sebastião

Esta cidade em embrião é composta de elemento, quase que todo, de etnia germânica, que há cerca de meio século estabeleceu-se sobre a margem esquerda do rio Caí. Região de terras fertilíssimas.

O vapor encosta na cabeceira da ponte, e os nossos, pouco a pouco, são desembarcados e, a pé, conduzidos à Casa da Imigração, uma verdadeira barraca, sem trincos nas portas e janelas. Também aqui, a dificuldade de fazer-se entender. Por sorte, Seppo Dall’Ega conhecia e falava a língua alemã, assim pôde obter certas facilidades para a manutenção da família.

Porto de São Sebastião do Caí por volta de 1910.

A comida é sempre variada, muitas vezes também deficiente, ou muito salgada ou insípida. Como o idioma do Barba Roxa, Flagelo de Deus, fosse falado em qualquer lugar daquela região, Dall’Ega podia vagar e entender-se bem com aqueles alemães.

 

4.5 Viagem para Feliz

Depois de mais ou menos uma semana em Caí, os nossos viajantes foram embarcados em carros puxados por uma meia-dúzia de mulas e vão-se, cerca de vinte quilômetros, por uma estrada coberta por uma espessa camada de finíssima areia que atrapalha e, com dificuldade, prosseguem a viagem, interrompida muitas vezes pelas valetas e valões, com perigo de o veículo tombar com sua carga.

4.6 Chegada ao Rio da Feliz.

Ao anoitecer, os nossos chegam ao pequeno grupo de casas denominado Rio da Feliz. É forçoso parar porque a estrada, cada vez mais impraticável para os carros pesados, e a travessia do rio não permitem prosseguir a viagem. Nova parada! Até quando? Quando terá fim essa odisseia, essa vida atribulada e tempestuosa? Sorte que o tempo é quase sempre favorável ao prosseguimento [da viagem] dos nossos emigrantes.

Depois de passarem a noite de qualquer maneira, na manhã seguinte levantam-se com as costelas machucadas. O tempo é bonito e a pequena cidade parece sorrir aos novos hóspedes, que admiram as pequenas, mas belas casinhas brancas e de belíssimo aspecto e cujos habitantes e proprietários – provenientes, consta, da região de Hannover, do nordeste da Prússia – aqui chegaram por volta de 1830. Em quase todos esses lugares, os terrenos são de uma fertilidade surpreendente, mais planos, menos montanhosos e também com a vantagem de se encontrarem mais próximos aos centros de comércio e à capital do Estado.

No dia seguinte, o empregado da Imigração avisou a cansada e sofrida turma de esfarrapados que, daquele lugar em diante, sua condução até o destino, isto é, até a colônia – tanto das pessoas como das bagagens – seria feita por meio de cavalgaduras.

A condução seria: cada cavalgadura com sela levaria dois cestos, ou seja, duas bolsas de couro, capazes de conter uma criança sentada e, na sela, uma pessoa adulta. Se o animal fosse inquieto ou insubmisso, seria guiado pelo cabresto por um homem.

Por não haver cavalgaduras suficientes para os homens, eles seguiriam a pé. Alguns caixões que vieram da terra natal, por não poderem ser carregados porque muito volumosos, tiveram de ser desmanchados e diminuídos a uma medida adequada, isto é, de uma caixa, adaptada a cada cavalgadura.

4.7 Deixam o rio da Feliz

Depois de uma permanência de quatro ou cinco dias naquele vale, uma manhã ouvem, à breve distância, o som de um cincerro. Logo surge uma tropa de burros e mulas, cerca de vinte, devidamente arreada e guiada por um moreninho montando uma égua bastante magra, que levava ao pescoço um cincerro, cujo som se fazia ouvir a certa distância.

Aquele moreno que guiava a tropa é chamado, usualmente, madrinheiro (madrigneiro). Seguia, atrás da tropa, o tropeiro, ou o patrão, com algum empregado, para atender eventualmente a quem precisasse de auxílio. O tropeiro agitava constantemente o relho, fazendo-o estalar à esquerda e à direita para manter os animais coesos e apressar a viagem. O tropeiro era um homem jovial, alegre, verdadeiro tipo de gaúcho, que quer dizer habitante natural do estado do Rio Grande do Sul. Tinha na cabeça um chapéu de abas largas, firmado sob o queixo por uma cordinha preta, amarrada em um grande laço.

No pescoço, um enorme lenço de cor. Vestia largas calças pretas, tendo ao lado duas longas fileiras de botões brancos; calçava nos pés um par de botas desgastadas, amarelas, com esporas de enormes rosetas que, quando [o tropeiro] caminhava nas pedras ou no piso, retiniam com um som endiabrado.

Nos flancos, em torno do corpo, levava um enorme cinturão de couro peludo, que chamava de guaiaca; na parte posterior da mesma havia um bolso para pôr dinheiro.

No lado esquerdo, levava um longo facão na bainha de couro e, à direita, uma enorme pistola que punha medo. Tal aparato belicoso naquele homem fazia-o parecer-se a um prepotente à moda Dom Rodrigo, de infeliz memória, do domínio espanhol na Itália. Depois de desarreadas as cavalgaduras, apresentou-se aos nossos, com a saudação gentil e tradicional do “gaúcho”. Algumas mulheres e crianças se assustaram, pensando que fosse um dos valentões que assustaram o sacerdote Dom Abondio de Os Noivos, de Manzoni, que o nosso Dall’Ega havia
lido para os emigrantes a bordo do Rivadavia.

No dia seguinte, reunidas e arreadas as mulas, depois do desjejum, os nossos, prontos para a partida, [foram] colocados cada um no seu lugar. Foi um momento de grande confusão, porque alguma mula não [estava] habituada à nova carga e aos estrilos e gritos das mulheres e das crianças, assustadas com os saltos dos animais.

As mulheres, a cavalo como os homens, agarravam-se com as mãos no selim de madeira, uma mão na frente da outra, firmemente. Não faltaram os gritos de Jesus, Maria! Ajudem-me! Virgem Maria, misericórdia! E choros acompanhados de orações de pai-nossos e ave-marias. As crianças, nas bruacas ou nos cestos, gritavam a mais não poder. O tropeiro, irritado, ameaçava em vão aqueles pobres infelizes. Os homens, com a espingarda de dois canos a tiracolo, esforçavam-se, o quanto podiam, para manter em ordem, tanto os animais agitados, como para fazer calar aqueles pobres infelizes, assustados, ainda que com algumas blasfêmias involuntárias.

Finalmente, acalmados os ânimos e restabelecida a ordem, a tropa parte por uma estradazinha, que pouco a pouco entra na mata, convertendo-se em trilha, bordejada de ervas, arbustos e espinheiros. Muitas vezes, as cavalgaduras devem percorrer longos trechos em verdadeiros degraus, com buracos, fossos transversais, feitos pelo passo das mulas, da profundidade de trinta, quarenta, ou mais centímetros, cheios de água pantanosa. A cada passo do quadrúpede, aquela lama líquida era espalhada para todos os lados, assim que
os nossos míseros viajantes, tanto os que estavam nos cestos como os que iam montados, ficaram em pouco tempo encharcados de água barrenta.

Algumas crianças, naquela desconfortável posição, dormiam, outras choravam com dor nas pernas ou nas coxas. Uma ou outra mãe, com um lactente ao peito, que estreitava com medo que lhe caísse dos braços, lamentava-se com raiva pela situação incômoda e pelas contínuas câimbras nas pernas e rezava e rezava! Que martírio para aquela pobre gente!

Os homens, com a cabeça inclinada, ora à frente, ora atrás daquela fila de infelizes, seguiam aquele caminho escabroso, em degraus, cujos desníveis molhados faziam-nos cair nos buracos e, então, uma mal contida expressão escapava, ainda que não quisessem.

Antes que o sol entrasse totalmente no ocaso – aquela triste jornada – aquela mísera turma de infelizes, mais mortos do que vivos, de cansaço e de sofrimentos, de fome e de sede, chegavam a um grande vale, onde, à margem de um riacho, havia um grupo de casas de madeira. Era Santa Maria do Forromeco.

4.8 Chegada a Santa Maria do Forromeco

Também nesse povoado, cujas casas são quase todas de madeira, e cujos habitantes bem como os colonos são originários da Alemanha, vindos há quase meio século, é forçoso fazer nova parada porque a noite se avizinha.

Aqueles coitados são desmontados das cavalgaduras e não podem caminhar, estão enrijecidos e caem ao solo; é um contínuo soluçar, chorar e lamentar-se de dor nas pernas e em todos os membros. Meu Deus, perdem o equilíbrio e vão às cegas, inseguros.

Aos poucos, são conduzidos a uma cabana que serve também de alojamento aos quadrúpedes. Desse ambiente, que serve de Casa da Imigração, há poucas semanas saiu outro grupo de esfarrapados, cerca de uma dezena de famílias lombardas e trentinas, para a região, assim dita, “italiana”. Quanto tempo deveremos ficar neste vale forromecano de lágrimas?

Lá, os nossos, para sua surpresa, devem resignar-se à nova parada, porque o tropeiro, com os seus animais, retornou a Feliz para buscar novos emigrantes. A alimentação aqui é fornecida mediante bônus, que são distribuídos a cada pessoa da idade de doze anos para cima e, para os filhos abaixo dessa idade, um bônus para duas pessoas.

Às vezes, por qualquer irregularidade dos cozinheiros e distribuidores, sucedia algumas rixas que se agravavam pelo motivo de [os nossos] não conhecerem o idioma nacional e, ainda pior, por não entenderem o idioma de Goethe, comumente falado naquela região. Seppo Dall’Ega saía-se bem, pois, como já se disse, falava e entendia bem o alemão.

Um dia, com a espingarda de dois canos a tiracolo e com o filho mais velho, Luigi, saiu pelo campo para caçar aves etc. Do campo, entrou no mato e subiu pouco a pouco a montanha.

A mata era de uma infinita variedade de árvores, grandes e pequenas, arbustos – às vezes com longos espinhos, as árvores, entrelaçadas e enredadas com lianas em várias e fantásticas posições. Gigantescas e grossas árvores seculares, entre as quais o pinheiro, planta conífera, sempre verde e que produz o substancioso fruto chamado pinhão. Essa gigantesca árvore ultrapassa sempre, em altura, as outras árvores. O seu tronco com a casca rugosa, da espessura de oito a dez centímetros, chega à altura de trinta metros ou mais, e a base com um diâmetro de um metro e cinquenta centímetros ou mais.

A fauna é rica em aves. Da variedade do papagaio de penas multicores, dos periquitos de cabeça azul-turquesa e peito vermelho e que são o desespero do agricultor, pois são devoradores de milho verde nos campos e voam em grandes bandos. Outra qualidade, denominada arara, grande e de várias cores que, da manhã à noite, em grupo, com uma constância maravilhosa, grita creo-creo, e outras variedades de papagaios.

Devo nomear o tucano, da família das [aves] trepadoras, pássaro que se caracteriza pelo bico quase do comprimento do seu corpo e do qual [bico] se poderia fazer uma tabaqueira. É ao mesmo tempo bonito por suas três cores – além de ser preto, tem o peito vermelho e amarelo. Tem um canto um tanto antipático, um gruá-gruá.

O pica-pau, o nosso beca-legno, que busca insetos no tronco das árvores; o beija-flor, o menor pássaro desses lugares, e muitíssimos outros de variados tamanhos, cores e cantos. O nosso caçador havia-os abatido de diversas qualidades, e como o sol estava encoberto por nuvens, não podia saber que hora fosse, pois, privado do relógio, para orientar-se subiu ao topo da colina a fim de descobrir o caminho de retorno, já que havia abatido pássaros à saciedade.

Enquanto os nossos seguiam pela trilha, ouviram sobre suas cabeças, com surpresa, entre os ramos e as folhas e sobre os pinheiros, estranhas vozes e urros, sem que pudessem reconhecer de que natureza fossem, porque as folhas não permitiam ver e distinguir qualquer coisa. Entretanto, os urros se tornavam mais fortes. Os nossos Dall’Ega, impressionados por tão estranho urrar, desceram o monte com passo rápido. O estranho urrar parecia provocado por mais seres, e Seppo dizia aos filhos que provavelmente haviam percebido a sua presença e, assim, aceleraram o passo até ao término da floresta. Quando se viram em uma clareira, pararam, pois os antipáticos urros eram ouvidos já à discreta distância. O sol, entretanto, se avizinhava do ocaso, e os nossos caçadores, vendo um agricultor que estava aprestando o arado e os animais para retornar a casa, aproximaram-se com uma saudação em alemão. O agricultor, surpreso com aquela aparição inesperada, respondeu ao cumprimento e perguntou se eram imigrantes. À resposta, seguiu-se entre eles um breve diálogo. Seppo perguntou ao alemão que animais ferozes seriam os que urravam sobre as árvores. O alemão respondeu que não eram animais ferozes, mas, sim, bugios, e que não era mais do que um a fazer aquele alvoroço, aqueles urros, o chefe das fêmeas, e que, se não molestados, são inofensivos. O alemão depois tomou outro caminho e foi-se.

Não, porém, sem a saudação, e os nossos tomaram o caminho de retorno. A tarde estava próxima ao ocaso. A uma distância de cerca de duzentos metros da espelunca da Imigração, deviam passar perto de um banhado, onde os nossos se maravilharam, pois do mesmo saía uma música, de notas muito disparatadas e com tom incompreensível. Parecia que naquela água estagnada houvesse uma grande oficina de ferreiros, fábrica de tinas e pipas, carpinteiros, canteiros, funileiros e muitas crianças que choravam, um verdadeiro inferno bacanal.
Souberam depois que aquela confusão de notas, golpes, choros, vozes, miados, estrilos, bater de bigornas e em alambiques era uma infinidade de rãs, batráquios, sapos etc.

Todos esses anfíbios, de variadas qualidades, espécies e tamanhos, viviam em promiscuidade e, à noite, davam prova de sua assustadora e diabólica música infernal. De tal concerto bestialógico, os nossos excursionistas se maravilharam muito, especialmente o filho de Seppo, pois que no seu lugar de nascimento, nas montanhas, não havia banhados e paludes.

Depois de três dias de repouso, se assim se pode dizer – e [Dall’Ega] acredita ter sido no dia 4 de setembro, em plena primavera desse hemisfério – chega, à tarde, um novo tropeiro. Na manhã seguinte, depois do desjejum e com o mesmo processo de condução do Rio da Feliz a Forromeco e com os mesmos gritos, choros e lamentos, partem para a região chamada italiana de Conte Deo (Conde D’Eu) e Donna Isabella (Dona Isabel).

4.9 Partida de Santa Maria

Depois de deixado o vale do Forromeco, a tropa, com sua carga humana, toma a subida da assim dita Linha Francesa, habitada por colonos dessa nacionalidade e separados daqueles de nacionalidade germânica, lugar onde termina [a colonização] de influência teutônica. Os colonos franceses são pouco propensos a imigrar para essas matas selvagens, onde tudo está por fazer – estradas, pontes, escolas, igrejas e hospitais etc., onde a fauna reina soberana. Por isso, vieram em número limitado.

O caminho é, como sempre dentro da mata, estreito e com os costumeiros degraus e poças.

De tanto em tanto, a alguns passos da estrada, uma casinhola rústica de madeira, com um cachorro à porta [que] ladra para os atônitos imigrantes, os quais à saudação de bon-ju, respondem hesitantes buon giorno. Deixada a Linha Francesa. Depois de algumas horas, apareceram as primeiras casinholas de madeira da linha chamada Santa Clara, já no altiplano da região colonial italiana.

Esta linha dos primeiros colonos italianos está sendo habitada há cerca de dois anos. [Eles] já tem as suas modestas habitações e dependências. Obtiveram a sua vaca, os porcos no chiqueiro, as galinhas, o cão de guarda, a horta com o radite, a alface, a salsa. Depois do afadigoso desmatamento, nos primeiros dois anos, colheram o milho, o trigo, a cevada, o centeio, o feijão etc. A porção de terra que o governo lhes vendeu é uma colônia de quinhentos metros quadrados a preço cômodo e conveniente.

Ó, quanto o espírito se comove e se alegra ao ouvir daqueles primeiros colonos a doce saudação buon giorno; vinham à porta, às janelas e pediam notícias da distante e nostálgica pátria. Pobrezinhos, depois de sua partida, não haviam mais recebido notícias!

No momento, a tristeza dos nossos exilados desapareceu ao ouvir falar o gentil idioma. Os homens, mesmo cansados, puseram-se a cantar um versinho (talvez um pouco incorreto) do hino de Garibaldi:
Descobrem-se as tumbas,
erguem-se os mortos,
os mártires nossos
todos ressurgem.
A espada empunhando,
os louros na testa,
a chama e o nome
da Itália no coração.
(Estará bem assim?)
Não o lembro bem.

Às seis horas da tarde, a tropa chega ao povoado chamado Conde D’eu (Conte Deo), nome do esposo da Princesa Dona Isabel, filha do Imperador do Brasil Dom Pedro II e herdeira do trono imperial.

4.10 Chegada a Conde D’Eu

Chegados a esse povoado, os nossos atribulados e aflitos imigrantes são, aos poucos, desmontados e conduzidos a um espaçoso barracão de madeira, mal vedado, onde havia também outras poucas famílias de trentinos, que esperavam também para serem conduzidos ao destino. Depois de engolirem às pressas, como jantar, uma espécie de café de péssimo sabor, com pão mofado, e alojados de qualquer modo, cansados e exauridos pela viagem, adormeceram.

Vista de Conde D’eu, atual Garibaldi, em 1884

Essa cidadezinha em embrião é composta de uma vintena de casas, todas de madeira. Traçada que foi há cerca de vinte meses, já tem uma capela, dedicada a São Pedro, para a qual foi nomeado capelão, em 8 de julho do corrente ano, o Rev. Padre Augusto Finoti, italiano, sacerdote coadjutor de Dona Isabel, da qual faz parte, ainda que a uma distância de quatorze quilômetros por uma estrada íngreme.

A parada nessa localidade parece ser de curta duração. Na manhã de 7 de setembro, saídos dos duros catres, preparam-se para o desjejum. Em seguida, já que se apresenta a comodidade, depois de muito tempo, vão à igreja e assistem a função da santa missa.

Na volta à casa da Imigração, souberam que ainda no mesmo dia, depois do almoço, partiriam para a sede do núcleo de Dona Isabel.

 

Capítulo 5 – 7 de Setembro de 1878

O dia é belo, primaveril, igual ao nosso florido e inesquecível mês de maio. Enquanto as nossas mulheres agordinas preparavam a costumeira e frugal refeição, ouvem um insólito espocar de rojões pelo ar. O que será? Dois mulatos que passavam disseram que era dia de festa, pois era feriado, ou seja, o 56.o aniversário da independência do Brasil do odioso domínio de Portugal, por mérito do primeiro Imperador Dom Pedro de Alcântara em 1822. Exatamente no dia 7 de setembro. Pasmos, os imigrantes não souberam o que responder. Mas, alguém falou com ironia que, para eles, a independência ainda estava longe!

 

5.1 Partida de Conde D’Eu e chegada a Dona Isabel

Às oito horas da manhã do dia 7, já havia chegado o tropeiro com suas mulas e, às dez horas, os nossos míseros exilados estão novamente a cavalo ou nas bolsas de couro e partem choramingando e resmungando por aqueles incômodos e intermináveis degraus pantanosos. Os chefes de famílias, com as suas espingardas a tiracolo e o cabresto na mão, guiam os animais e, com as pernas encharcadas de lama, a cada momento o perigo de cair nos buracos do caminho lhes fazia escapar algum involuntário palavrão.

Finalmente, depois de quase cinco horas por aquela horrível picada, alcançaram a povoação de Dona Isabel, grupo de casas e ranchos de madeira, com ruas sem ordem. Este povoado, se assim se pode chamar, foi iniciado pelos primeiros imigrantes, trentinos, lombardos e vênetos, há cerca de dois anos e meio. Mais ou menos uma vintena de famílias. O diretor, francês, é uma boa pessoa e se chama Ernesto Cartier, que possui uma pequena farmácia; há três casas comerciais, dirigidas por três toscanos: Turriani, Carli e Baldini, ainda vivos. O padre da paróquia é Dom Giovanni Menegotto, vêneto de Pádua (Itália). De um ano para cá, existe uma fabriqueta de cerveja dos trentinos Valduga e Ponticelli, um funileiro, Tomaso Ariolli, uma pequena pensão do vicentino Pietro Venturella, duas oficinas de ferreiros, do napolitano Biaggio Reali e de Crivelli, uma venda de bebidas do friulano Arcângelo Morassutti etc.

Os nossos, exauridos e estropiados pela incômoda cavalgadura, são, aos poucos, desmontados e conduzidos à casa da Imigração – de propriedade do trentino Davide Manica – mais mortos do que vivos de cansaço e dos sofrimentos. Os chefes de família rapidamente acomodaram naquele barracão as suas bagagens e, num espaço formado pelas caixas, providenciaram uma simples cama para a noite. Como havia tempo, em grupinhos fizeram um giro, passaram perto da Diretoria, onde, em uma janela, estava hasteada a bela bandeira imperial, verde, amarela e azul [tendo] ao centro as armas da nação.

Passando perto de uma bodega, alguns dos nossos cinco agordinos tinham ainda alguns trocados nos bolsos, e pensaram em entrar e provar a aguardente, que acharam ótima, e em pouco tempo tomaram meia garrafa. Encontravam-se na bodega outros colonos italianos, entre os quais três que falavam o dialeto feltrino, os quais, sabendo que, de um dia para outro, chegariam imigrantes da Itália, fizeram a pé nove ou dez quilômetros e foram para Isabella, como vulgarmente era chamado aquele lugarejo. Os três colonos, como muitos outros, estavam estabelecidos, havia cerca de dois anos, a várias distâncias e em várias linhas (picadas) e, como o governo distribuía lotes de terra agrícola (colônia) de cinquenta metros quadrados por família, a preço reduzido e em condições convenientes, e porque havia famílias pequenas, isto é, com poucos filhos e de pouca idade, e alguns achando que a colônia era grande demais para a pequena família e sabendo que deveriam chegar da Itália outros imigrantes, foram ao povoado para obter notícias. Assim, aqueles três feltrinos, quando viram entrar os cinco agordinos, entreolharam-se, dizendo entre eles: – Aqui está nossa oportunidade! Quando os três souberam que os recém-chegados eram agordinos, manifestaram sua alegria, ordenando meia garrafa de aguardente e outros cinco copinhos que encheram e os convidaram a beber; os nossos, com entusiasmo, não esperaram novo convite.

Depois de uns e outros vivas, os feltrinos fizeram suas ofertas de venda da colônia que diziam [ser] muito grande para a pequena família e, como a noite se aproximava, deixaram o assunto para o dia seguinte, que eles também passariam a noite na povoação.

Os três trentinos, hospedados naquela baiúca, trataram entre eles o preço e as condições de venda da metade da colônia de cada um. Combinaram o preço em 160.000 réis, que corresponde a cento e sessenta florins de 50 vinténs (o vintém corresponde a uma moeda de 20 réis).

Na manhã do [dia] 8, foram à casa da Imigração, onde encontraram os cinco agordinos, aos quais lembraram o assunto da tarde anterior e, que se pretendiam fazer a compra [da terra] em vez de recebê-la do governo, que deviam, nesse caso, contentar-se em recebê-la em localidade muito incômoda e distante, onde as colônias estariam sem comunicação e eram habitadas por feras, no meio da selva quase impenetrável; e que suas colônias se encontravam cerca de nove quilômetros, na Linha chamada Palmeiro, e se bem que [eles] ainda não fossem providos de estradas cômodas, o Diretor havia prometido que o quanto antes seriam iniciados os trabalhos – trabalhos em que seriam empregados os próprios colonos. Se quisessem aproveitar, eles partiriam logo depois do almoço e os levariam em sua companhia. Assim, os nossos cinco agordinos combinaram em aceitar o convite e se prepararam para acompanhá-los, deixando as suas famílias na Imigração, prometendo que no dia seguinte estariam de volta; porém, primeiro, acertaram, na Diretoria, que poderiam estar ausentes dois dias; licença concedida.

Depois de um percurso de cerca uma hora e meia por uma picada, em degraus e pantanosa, pelo mato virgem, chegaram, após uma longa descida, junto a um rio, onde, em uma várzea, à margem esquerda, havia três ou quatro habitações rústicas, entre as quais uma venda (bodega), de um napolitano chamado Giuseppe Lombardi e uma alta construção de um só piso e mal vedada, com longas taquaras pregadas na parede, horizontalmente, e rebocada de barro e folhas.

Esse lugar, quase solitário e sem nome, era destinado a ser a sede da Colônia Dona Isabella, mas que [os três feltrinos] não souberam o motivo da desistência da escolha da localidade para sede da futura cidade. Aquele barracão rebocado com barro ainda alojava uma família de imigrantes trentinos, chamada Dal Ri. Para isso foi edificado tal casarão, albergar temporariamente os imigrantes; assim, com o tempo, tanto a localidade como o rio tomaram o nome de Barracão (Baraccon). Depois de tomarem um trago no Sr. Lombardi, vadearam o rio com os sapatos na mão e prosseguiram o caminho escabroso.

É necessário aqui dar o nome dos três feltrinos. O primeiro, Antônio Zanolla; o segundo, Antônio Pagnuzzat; e o terceiro, Cesare Osmarini. Naquela linha, ou picada, como costumavam chamar, havia outros colonos, à breve distância uns dos outros, todos da alta Itália e chegados havia cerca de dois anos. Já haviam construído suas rústicas habitações de madeira, com suas dependências, a vaca, um porco e algumas galinhas [que] tinham, pouco a pouco, obtido.

Às observações dos recém-chegados, enquanto caminhavam, e que já tinham sido feitas aos três compatriotas antes de partir da sede, os feltrinos responderam que a meia colônia que lhes venderiam seria paga pouco a pouco, com o ganho, tanto por algumas vendas de cereais que com o tempo colhessem para além de suas necessidades, e com o trabalho que em breve seria iniciado na construção da estrada, ou por qualquer outro meio lícito, pois que, com exceção de Seppo Dall’Ega, que era hábil pedreiro, os outros quatro concidadãos, além de agricultores, eram de profissão cadeireiros. Assim, concordes, prosseguiram o seu caminho. De quando em quando, à margem do caminho ou pouca distância, encontravam algumas casinholas, habitadas por colonos italianos, cujas crianças, ao verem aquele grupo de desconhecidos, armados de espingardas a tiracolo, apavoradas, escondiam-se no interior da casa.

Depois, cerca de uma hora da localidade Barracão, chegaram ao lugar onde residiam os três feltrinos. Para abreviar: Giovanni Damian, dos Begnù, comprou a colônia n. 11 da Linha Palmeiro, de propriedade de Cesare Osmarini; Antonio De Zorzi (Baluosa), comprou a meia de n. 12 de um colono trevisano, certo Luigi Verdànega, nas mesmas condições dos outros; Luigi Dall’Acqua (Fasolo), comprou a metade de um colono mantuano, a de n. 34 da mesma Linha Palmeiro, nas mesmas condições; Giovanni Schenna (Cianello) comprou a meia de n.o 10 da
mesma picada, pertencente a Antônio Pagnuzzat e, finalmente, o autor destas mal traçadas e mal escritas notas, Giuseppe Dall’Acqua (Seppo Dall’Ega, dos Malech) comprou a meia colônia n.o 9 da mesma Picada Palmira, de propriedade do colono Antônio Zanolla, que, sendo também ele de profissão pedreiro, combinou que, quando houvesse algum trabalho em vista para fazer, convidaria também o comprador da meia colônia, Seppo Dall’Ega, para trabalharem juntos.

Assim, os nossos agordinos, contentes com a aquisição feita e por não terem de sujeitar-se a receber do governo a colônia à grande distância, na mata virgem, sem comunicações, sem pontes sobre profundos rios e vales inóspitos [habitada] somente por feras, muitas vezes ferozes, privados de qualquer recurso em caso de necessidade! Não, não! No lugar determinado por eles [para a] nova residência, havia compatriotas, cá e lá, já estabelecidos havia cerca de dois anos, contentes de sua situação, ainda que com dificuldades no momento, mas que se Deus escutasse suas orações, como esperavam, e com saúde, teriam melhorada a sua situação.

No dia seguinte, depois de ter passado a noite em casa do próprio vendedor da meia colônia e sabido das dimensões da mesma, isto é, dois mil e duzentos metros de profundidade, cento e doze metros de largura, que acharam grande, cerca de duzentos e cinquenta mil metros quadrados, meu Deus, quanta terra!

Dia 9 de setembro, depois do desjejum, Zanolla disse ao Dall’Ega que até que [esse] não tivesse reformado e tornado cômoda uma espécie de habitação, à breve distância, uma escavação em um barranco próximo a um riacho, já quase demolida e em abandono, a família poderia alojar-se em sua casa. Assim ficou estabelecido.

Reunido com os outros conterrâneos, todos contentes e satisfeitos pela compra de tanta terra a preço conveniente, depois de mais ou menos três horas de estrada, estavam de novo na sede Dona Isabella, onde eram esperados ansiosamente por suas famílias.

Setembro, 9. Depois do meio dia, o tropeiro Enricco Riccone avisou os cinco agordinos que no dia seguinte, dia 10, estivessem prontos para partir para a colônia, que ele sabia onde eles haviam escolhido as terras, pois que o Diretor, tendo sabido dos cinco imigrantes, havia comunicado ao tropeiro, por isso vinha adverti-los que depois do desjejum, amanhã, partiria para levá-los ao seu destino, viagem de somente dez quilômetros.

 

5.2 Partida de Dona Isabella e …chegada à colônia

Para festejar a partida, os nossos agordinos, sabendo que deveriam percorrer aquele trecho de estrada, conseguiram uma garrafa de aguardente, que tomariam durante a viagem. Na manhã do [dia] 10, a tempo, o nosso tropeiro estava no seu posto e, às oito horas, os nossos exilados voluntários, prontos para a partida. As mulheres, fartas de montar, como os homens, naqueles selins de madeira rústica, disseram que preferiam percorrer aqueles dez quilômetros a pé, mesmo que as estradas fossem trilhas para cabras, pois elas estavam habituadas a andar a pé. Então, o patrão da tropa deu a cada uma um cabresto para que guiassem os animais, que levavam nos cestos as crianças.

Finalmente, ao meio-dia de 10 de setembro de 1878, após sete meses e vinte dias, o destino! Cada família descarregou tanto as crianças como as bagagens na [casa] do colono que lhe vendera a terra.

O bom colono Antônio Zanolla, com seus filhos, ajudou a descarregar a tropa e colocar em casa os pertences e cada coisa do Dall’Ega e, como a dona da casa, de nome Rosa, tivesse preparado a mesa com polenta, salame e queijo – pois que esses imigrantes estavam ansiosos por comer – puseram-se à mesa e, com grande prazer, depois de tanto tempo, saborearam finalmente a prelibada polenta.

Depois do repouso de algumas horas, Dall’Ega pediu a Zanolla que o acompanhasse ao lugar daquela espécie de habitação demolida. Quando a viu, não se queixou, ao contrário, fez uma bonita cara e disse que, em uma semana, ele converteria aquela tapera em uma invejável cabana, mas não de Belém. Assim, com boa impressão e porque estava um tanto cansado, o nosso Seppo voltou para os seus familiares.

Depois do jantar, para satisfação da família Zanolla, Seppo Dall’Ega propôs aos seus a reza do Santo Rosário em ação de graças à Divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo e de Sua Mãe Santíssima, pela chegada da família ao destino. Enquanto isso, no fogo, cozinhava uma panela de pinhões, fruta substanciosa e saborosa dos pinheiros, que os filhos de Zanolla haviam juntado em tempo oportuno.

Zanolla, contente pela venda e o bom relacionamento com Dall’Ega e por ter conseguido a vizinhança de um colega de profissão e, finalmente, pela chegada de novos colonos para aumentar a coletividade de compatriotas, dava sinais de autêntica alegria.

Entre tantas coisas relacionadas à viagem da Pátria ao Brasil e das peripécias dos primeiros tempos na colônia, com suas ásperas consequências, o bom Zanolla expressou-se assim:

Quando nós chegamos aqui, não havia habitação alguma; chegamos por uma trilha que só com muita dificuldade e penas podia ser percorrida. O tropeiro nos descarregou aqui mesmo, neste lugar. Olhei tristemente ao redor – circundados pelo mais negro e espesso mato, espinhos, arbustos, lianas para cima e para baixo, enredadas em colossais e gigantescas árvores e pinheiros seculares – privados de estradas, sem casa, sem igreja, escola, farmácia e médico, sem moinhos; privados de vizinhos e de amigos, sem alimento e sem dinheiro!

Privados de ferramentas, sem conforto algum. Moscas, mosquitos, insetos de todas as espécies e qualidades – e no mistério da selva escura! (Aqui é o caso de dizer com o Sumo Poeta: Deixai cada esperança, ó, vós, que entrais!). Ai de quem adoecesse, porque o enfermo estaria perdido.

Nos primeiros dias, olhávamos um para o outro, perplexos, sem poder falar! Quantas vezes afogávamos a nossa dor, a nossa tristeza no pranto em comum, procurando consolo no nosso duro trabalho. Quantas vezes preferimos a morte àquele estado de vida selvagem! Quantas vezes, desencorajados, ajoelhamo-nos ante uma árvore e, entre soluços e lágrimas, suplicávamos a proteção do Altíssimo e da Virgem Maria, rezando o Santo Rosário com fervorosa devoção.

Ó sim, podemos afirmar que se não fosse a fé em Deus e a devoção à Maria Santíssima, teríamos perecido! Mas o Senhor ouviu nossas preces e nos conduziu ao bom porto da salvação, como também [conduzirá] você, Dall’Acqua, com a sua família e seus conterrâneos; com a sua experiência do mundo e a constante fé na Divina Providência, a sua coragem e perseverança, como nós não perecemos, você também conquistará a vitória.

Fim dos Appunti di Viaggio de Giuseppe Dall’Acqua.

N.B. O abaixo assinado escrevinhador pede desculpas ao benevolente e paciente leitor pelos inúmeros erros de
ortografia, bem como pela irregular caligrafia.

Bento Gonçalves (ex-Dona Isabel), 2 de janeiro de 1901.

Reprodução da última página dos Appunti di Viaggio