Ersília Electra Dall´Acqua
Texto de Gema Bianchi – Filha de Ersília
Os imigrantes Ângelo Dall’Acqua e Marina Sbardelotto tiveram muitos filhos, e todos tomaram seus rumos. Deus destinou uma filha deles, Ersília Electra, para ser nossa mãe, uma mulher doce e corajosa, de uma bondade inigualável. Ersília nasceu em 30 de agosto de 1902, na capela de São Miguel, da Linha Palmeiro, em Bento Gonçalves. Casou-se em 1929, em Casca, com João Bianchi, nascido em 1905 em Antônio Prado, filho de Fidélis e Ângela Grandi. O casal teve três filhos e duas filhas: Ângelo, Gema, Deodite, Hermelindo e Saule, que tomaram seu rumo na vida ainda jovens.
Eu, Gema, convidada por Maria a escrever nossa história, começo voltando atrás no tempo. Quando meus pais vieram de Antônio Prado, contou-me uma senhora, D. Maria Rampazzo, vieram num grupo de seis famílias em um ônibus pequeno, trazendo suas mudanças. Perto de Marcelino Ramos, o ônibus quebrou. Todos desembarcaram para ajudar no conserto. Na hora do embarque, meu pai esqueceu sua caixa de ferramentas na barranca da estrada. Como estava escuro, ninguém notou. Com aquelas ferramentas, ele ganharia seu primeiro dinheiro para comprar alimentos. O Ângelo tinha então apenas dez meses e chorava de fome. Podemos imaginar o sofrimento deles. O ônibus desembarcou todas as famílias em Marcelino Ramos. Depois, a viagem continuou em carroça e cargueiros. Tudo o que meus pais levavam era um baú com o enxoval de minha mãe e algumas roupas. A caixa de ferramentas já não contava mais.
Em Concórdia, moramos um tempo na cidade, onde eu nasci. Depois, fomos morar no mato. Não lembro como fomos, mas mamãe contava que foi em cargueiro. Naquela época, eu tinha dois anos. Meu pai comprou sua primeira terra para começar a vida. O Ângelo contava quatro anos, eu dois, e a Dite ainda era nenê. Uma vez, quando eu ainda era bem criança, vi minha mãe triste, chorando. Perguntei por que chorava e ela me contou que, na véspera de nos mudarmos para aquele lugar, ao entardecer, foi buscar água na fonte e escutou um choro de criança bem próximo. Ela olhou ao redor, mas não viu nada. De chinelos, sentiu algo pisar no seu pé com tanta força que rasgou seu chinelo. Entrou em casa assustada, mas estava tudo em ordem. Apenas disse: “Ghe ze desgrassie par vegner!” (Vem desgraça por aí!). Eu, criança, não sabia o que significavam aquelas palavras, mas ficaram gravadas em minha memória.
Nosso primeiro lar foi uma casinha de pau a pique, coberta de tabuinhas feitas por eles mesmos. A casa deveria ter uns 3×5 metros, com chão batido. As divisões internas eram feitas com um cobertor “pega-pulgas” amarrado nas pontas. As frestas das paredes tinham pelo menos cinco centímetros de largura. Um dia, fomos todos para a roça. As crianças, montadas no cavalo, enquanto o pai e a mãe iam a pé. Começaram a trabalhar e, de repente, a mãe, que estava quebrando milho, deu um grito e caiu no chão. O pai correu para ver e percebeu que ela havia sido mordida por um escorpião. Pegou o cavalo e saiu em disparada para chamar o farmacêutico. No caminho, encontrou-se com um preto velho que perguntou: “Bianchi, com essa pressa? Aconteceu alguma coisa?” O pai contou o ocorrido e o velho respondeu: “Volte comigo, vou benzê-la, ela vai melhorar!” Chegando ao local, o homem pegou umas folhas verdes, passava na língua e benzia. Logo, a mãe voltou a si.
Ela, vinda de uma família estruturada, encontrou-se naquela situação de pobreza e isolamento. O vizinho mais próximo ficava a uns dois quilômetros de distância. Havia toda espécie de bichos: cobras, que meu pai matava e queimava, e até onças. Quando faziam queijo, as cobras sentiam o cheiro do leite e entravam pelas frestas da casa. O fogão era um caixote de madeira cheio de pedras e terra, com um gancho para pendurar a panela, protegendo o leite das cobras. Para cozinhar pão, mamãe fazia um buraco no chão, colocava brasas, punha a massa enrolada em folhas de bananeira e cobria com zinco e terra para assar. A polenta era feita de milho verde. Comia-se peixes, pássaros, o que estivesse disponível.
Em uma ocasião, fomos buscar nossa égua que havia fugido para o sítio dos Coldebella. Caminhamos seis quilômetros até lá. Encontramos a égua e voltamos montadas nela. Já era noite quando escutamos um assobio. Mamãe disse: “Ze la tigre!” Deu uma chicotada na égua e disparou em meio ao taquaral. No susto, eu fiquei presa em uma taquara que formava um arco sobre o caminho. Até hoje tenho o nariz torto por causa de um galho que se fincou nele. Foram muitas aventuras como essa.
Quando Deodite tinha dois anos, comeu coquinhos do mato e passou mal. Foi levada para a cidade, onde precisou de uma cirurgia complicada. A dívida do hospital aumentava e meus pais venderam tudo o que tinham, inclusive a terra, para pagar o tratamento. Ficamos sem nada. Depois de dois anos internada, Deodite piorava. O pai foi chamado para buscar um padre e dar-lhe a bênção final. Mas algo inesperado aconteceu: ao colocar um rosário sobre ela, minha irmã começou a mudar de cor. O pai massageou seu corpo e, milagrosamente, ela sobreviveu.
O tempo passou e nossa luta por dias melhores continuou. Meu pai trabalhou como zelador de cemitério e minha mãe lavava roupas para fora. Meu irmão Ângelo foi levado para Carazinho para aprender a profissão de fazedor de túmulos. Eu, ainda criança, trabalhava em casas em troca de comida. Não tínhamos luz elétrica e o querosene era racionado devido à guerra. Mamãe improvisava com banha e um pavio de pano para iluminar o quarto.
Os anos passaram, nossa situação melhorou, e conseguimos construir uma casa. Em 1982, reunimos toda a família para comemorar os 80 anos de minha mãe. Em seus últimos anos, sofreu diversas doenças, incluindo trombose. Ficou acamada por 14 meses, sem falar, apenas agradecendo com os olhos. Sofreu em silêncio, com fé e resignação. Sua última frase foi: “Daghela ai povereti che mi vao via” (Dê isso aos pobres, pois estou indo embora). Ela faleceu em 23 de maio de 1990, deixando um exemplo de fé e coragem.
Antes de concluir, quero contar que os brincos que pertenceram à nossa bisavó Anna Bonfardin estão comigo. Eram usados por minha mãe desde a morte de Anna, sua avó, em 1915, em Casca. A bisavó dizia que a neta que tivesse coragem de tirar os brincos de suas orelhas logo após sua morte poderia ficar com eles. Mamãe teve essa coragem.
-Gema Bianchi
Ersília Dall ́Acqua e o esposo João Bianchi
acompanhados pelo filho Ângelo. Por volta de
1930.
Fim…