Marina – Aquela que nasceu do mar

Marina era muito bonita. Sua filha Albertina Dall’Acqua, casada com Fontana, conta que ouviu dizer que quando seu pai Ângelo viu Marina pela primeira vez perguntou-se: – É uma mulher ou uma santa? Porque, tão bonita assim, só podia ser alguém vindo do céu. E, já nesse primeiro encontro, decidiu que casaria com ela.

A história de Marina nos chega através das lembranças de suas netas Zélia, Maria, clara e Elsa.

O navio San Martin, de bandeira francesa, cruzava o Atlântico, com uma carga de imigrantes italianos ocupando a terceira classe. Lá embaixo, em um depósito de carvão, uma jovem imigrante dá a luz a mais um filho.

É uma menina, que, por ter nascido no mar, recebe o nome de Marina. É o dia 5 de novembro do ano de 1876.

Era a segunda filha do casal. Seus pais, Agostinho Sbardelotto e Giovanna De Canal, eram naturais de Mel, um distrito de Feltre na Província de Belluno. Ao chegar ao Rio Grande do Sul, a família foi estabelecida na colônia D. Isabel, hoje Bento Gonçalves, no lote n.o 106 da capela de São Marcos na Linha Palmeiro.

Quando menina, Marina acompanhava o pai em suas viagens a Caxias do Sul. Agostinho Sbardelotto transportava para essa cidade produtos da colônia que lá eram comercializados. O meio de transporte era a tropa de mulas. Marina montava a mula-madrinha, aquela que puxava toda a tropa. Em Caxias, pai e filha eram hospedados na casa do amigo Eberle, de quem Sbardelotto era compadre. Nona Marina contava que muitas vezes dormiu lá, na cozinha de chão batido daquela primeira moradia, sobre o banco de madeira, aquecida pelo calor do fogoler. O casal Eberle, era amigo de Agostinho Sbardelotto.

Passam-se 19 anos e acontece o casamento com Ângelo Dall’Acqua no primeiro dia de maio de 1895 na igreja de Santo Antônio, na então vila de Bento Gonçalves. Como todas as noivas da época, Marina sonhava em vestir, na cerimônia mais importante de sua vida, um vestido branco, véu e grinalda a cobrir-lhe a cabeça. É preciso dizer que o uso do branco não era difundido entre as noivas da época na região de colonização italiana, não porque as noivas não desejassem apresentar-se branco, mas, por motivos práticos e econômicos, tal uso configurava-se como um desperdício. Era também costume entre as famílias italianas que o traje da noiva, compreendendo vestido, sapatos e outros complementos, fosse ofertado pelo noivo, quase sempre pago pelos pais do mesmo.

Assim, entre os noivos Ângelo e Marina, ficou estabelecido o encontro em uma casa de comércio para a compra do vestido e de outros acessórios. Ao chegar à loja, acompanhada de sua mãe, o sonho de Marina de brilhar num vestido de seda e véu brancos desmoronou ao ser-lhe apresentado pela futura sogra, que já estava lá à sua espera, um tecido, já comprado, de um melancólico marrom escuro, que a noiva, muda e triste, aceitou.

Marina, além da beleza suave, tinha um gênio bom. Era mulher muito ativa, independente e de poucas palavras, porém era alegre. Serena e ponderada, jamais discutia com alguém nem mesmo com os familiares. Conversava pouco com os filhos, menos do que era necessário, acarretando dessa poupança de palavras, segundo declarações de quem com ela conviveu, consequências negativas. Sua grande amiga, com
quem trocava visitas, era a vizinha e comadre Madalena, esposa de Cassiano de Zorzi. Entre as duas famílias, havia uma longínqua e profunda amizade, trazida de La Valle Agordina, terra natal dos Dall’Acqua e De Zorzi.

O amor de Marina pelo marido Ângelo Dall’Acqua transparecia em cada gesto que a ele se referisse. Levava-lhe na cama, sempre, um cafezinho com grappa, que ele tomava no início do dia. Como um anjo protetor, costumava entrar no escritório onde ele trabalhava e deixava-se ficar por uns momentos em sua companhia, sem precisar de palavras, e saía silenciosamente como entrara. Dava-lhe o tratamento cerimonioso de “voi”, equivalente a Senhor, embora houvesse entre eles a máxima intimidade. À hora do almoço, não mandava nenhum filho chamar o pai para ir à mesa. Era ela que ia ao marido para dizer-lhe que o almoço seria servido assim que ele estivesse pronto. Dall’Acqua tinha por ela um respeito ilimitado, não só por amá-la, mas porque sabia o quanto era valorosa aquela mulher.

Era sim valorosa e segura de si. Nas longas ausências de seu marido, fosse a trabalho ou por doença, ela governava a casa com domínio e conhecimento de cada situação a enfrentar. Em janeiro de 1904 (conforme registros em uma caderneta de notas), quando o 7.o bebê da família mal completara um mês de vida (Inês, nascida em 10.12.1903) Ângelo foi trabalhar em Bagé na sua profissão de carpinteiro e marceneiro, obrigando-se a ficar, mais de um ano, longe de casa. Foi nesse tempo, que Marina, ajudada pelo cunhado De Maman, transferiu a família, em lombo de mulas, para Casca, onde o marido comprara um lote de terras. E foi com o dinheiro ganho em Bagé, que Ângelo pagou esse lote e construiu nele uma casa de tábuas falquejadas para abrigar a família. Em novembro de 1905, com a ajuda dos irmãos Luís e do primo Abramo, iniciou a construção da casa para o cunhado De Maman, na Linha Colombo, tarefa que lhe consumiu quatro meses, com rápidas visitas ao lar. Ainda conforme anotações na mesma caderneta, Ângelo exerceu sua atividade de marceneiro e carpinteiro na vila de Guaporé, até 1911, mantendo o mesmo regime de visitas aos seus queridos.

Posteriormente, em 1914, o encargo de construir o telhado da nova prefeitura de Guaporé privou-o novamente do ambiente doméstico. Em 1933, por problemas oculares, permaneceu internado na Santa Casa de Misericórdia em Porto Alegre cerca de quatro meses, comunicando-se com a família apenas por cartas. Outras viagens demoradas a Porto Alegre exigiam-lhe também ausências prolongadas.

Nessas ausências, Dall’Acqua tinha a certeza de que os assuntos ligados a casa e a família estavam sendo conduzidos com sabedoria pela esposa e, não sem grandes sacrifícios, acrescidos esses pelo estado de gravidez em que normalmente Marina se encontrava. Do seu casamento em 1895 até o ano de 1921, ela deu a luz 17 filhos, sendo que dois faleceram em tenra idade.

Ausente ou não o chefe, era Marina que governava a casa, que entendia do trato aos animais e que sabia o que plantar, quando e quanto plantar. Ele não tinha pendores para a terra, sabia do seu ofício de carpinteiro e marceneiro, desempenhava a rigor o seu cargo de fiscal distrital, de agente do correio e outras atividades públicas e intelectuais, mas ignorava o funcionamento das lides agrícolas. Essas eram atendidas pelos filhos e por um peão, sob o comando da mulher. Ângelo esmerava-se no cuidado de uma horta, onde cultivava suas verduras e temperos quando podia, porém, Marina tinha sua própria horta que lhe fornecia alimentos mais consistentes para alimentar sua prole: aipim, morangas, favas, ervilhas, feijão, etc. Ela nem sempre ia à roça, por isso nunca soube, segundo as autoras do fato, o que aconteceu à meia quarta de sementes de feijão (quatro quilos) entregue às filhas quase adolescentes, Albertina e Clélia, para que a semeassem. As duas meninas que, avançadas em anos, riam com gosto ao lembrar as muitas artes praticadas, mais dispostas a brincar do que a trabalhar, livraram-se do feijão na borda do mato e voltaram felizes para casa, sem nenhum peso na consciência. Certamente, Marina ficou inteirada do sucedido por um dos filhos, sempre dispostos, como todos os irmãos mais velhos, a apontar as falhas das irmãzinhas, mas, com sua sabedoria, a mãe ignorou a travessura.

Marina também acompanhou o marido algumas vezes. Em 1936, o casal viajou a Curitiba, aproveitando para visitar, no retorno, parentes e amigos em diversas cidades de Santa Catarina; outra viagem, em 1942, na época da Segunda Guerra, a fim de visitar o filho Vitorio, que estava prestando serviço militar. Outras pequenas viagens houveram, para visita aos parentes em Guaporé, Passo Fundo e localidades próximas.

Marina era baixinha e gordinha. Teve sempre, até a morte, uma cútis invejável, perfeita e sem rugas a despeito da idade. Como todas as nonas, trazia o cabelo – castanho e muito liso e depois totalmente branco – penteado em coque e coberto por um lenço preto. Usava sempre um grande avental a cobrir-lhe toda a frente do vestido, longo quase até os pés.

Ela mesma costurava as roupas de uso diário de seus filhos. Mandou uma vez cortar uma calça pelo alfaiate de Casca e, sobre esse molde, passou a confeccionar as calças dos homens da família em sua máquina de costura manual.

Além de costurar, Marina fazia crochê e era habilidosa na confecção de acolchoados de lã. Em 1944, passou uma temporada, junto com o marido, em Guaporé, na casa da filha Itália. Acostumada ao trabalho, ou seja, a manter-se ativa, assumiu a tarefa de fazer alguns acolchoados de lã de ovelha para a família de Itália. Após a lavagem e secagem da lã, tarefas tediosas e nada agradáveis, que ela ajudava a executar, sucedia-se outra tarefa, não menos maçante: cardar, isto é, abrir a lã para que ficasse fofa e leve para a feitura do acolchoado. Era uma atividade executada manualmente, apenas com os dedos, que exigia muito tempo e paciência. Um aborrecimento total! Mas Nona Marina sabia como fazer esse trabalho render: rodeava-se de netos e netas de diversas idades, prometendo-lhes histórias; no centro, um montão de lã para abrir. Quando todos estivessem acomodados e passadas as instruções, começava o trabalho. Vencido o clima de novidade, antes de as crianças mostrarem cansaço, a nona começava suas histórias. Aliás, era uma história só, sempre a mesma, a do pastor e seu rebanho de ovelhas, contada no nosso dialeto italiano. A nona era lenta no contar, e os muitos detalhes alargavam a narração.

Enquanto a meninada escutava, abria lã. Algumas interrupções, brincadeiras e xingamentos eram normais, não atrapalhavam o andar das ovelhas, mas retardavam o relato. O momento da merenda, ali mesmo em torno da lã, permitia à contadora da história alguma folga no relato. Mas a tal história não tinha final, ou melhor, terminava sempre quando o pastor iniciava com suas ovelhas a travessia da ponte. Nesse momento, a narradora fazia uma pausa. Gerava-se então uma expectativa… As crianças, curiosas, ansiando por uma emoção maior, perguntavam: – e depois, nona? E ela, calma, demorava a responder e, com uma risadinha, concluía: – Esperem, esperem, agora estão passando a ponte!

Nona Marina tinha essa habilidade, entretinha-nos com uma história feita de nada, ou melhor, feita de detalhes, que não tinha fim e nem história era.

Sua filha Albertina contou-nos que Marina costumava descansar das atividades do dia, embalando-se em uma cadeira de balanço, quieta, sem conversar com ninguém. Tinha também o hábito de, após o jantar, retirar-se do convívio da família e sentar no pátio dos fundos, próxima à porta da cozinha, no escuro, sozinha, deixando-se ficar imersa em si mesma. Com certeza, era a sua maneira de meditar sobre o dia passado e renovar as energias para as dificuldades do dia seguinte. E pensar no marido, distante do lar.

É ainda de Albertina o depoimento de que viu a mãe chorar apenas três vezes: quando faleceu a Senhora Madalena De Zorzi, sua amiga e vizinha; quando o filho Alcides e a esposa Zelinda, que moraram na casa paterna por algum tempo, foram de mudança para sua própria casa e chorou outra vez quando faleceu o nono, no ano de 1952. Não que fosse insensível à dor, simplesmente não a exteriorizava. Vencia-a em silêncio.

Marina Sbardelotto e seu esposo Ângelo Dall’Acqua

Para ocasiões festivas, a nona fazia as fogassas um pão doce e aromático, de formato redondo, com a crosta brilhosa entre o dourado e o marrom, inesquecível aos olhos e ao paladar de todos que o provavam. Outra de suas especialidades era o pão sovado, comum, que ela amassava, acrescentando-lhe frequentemente torresmos.

Era dela a tarefa de fazer, além do pão, o queijo, também de tratar os bezerrinhos que nasciam e os porquinhos. Alimentava-os cuidadosamente com uma beberagem de farelo de trigo com água ou com soro de leite, para que superassem bem os primeiros tempos de vida. Era rápida e metódica em seus afazeres, cumpridos sem nervosismos e sem pressa.

No nascimento de seus 17 filhos, contou sempre com a presença em casa de seu marido Ângelo. Estivesse onde estivesse, em suas andanças, no cumprimento de seu trabalho como funcionário público ou como construtor, Ângelo fazia-se presente quando da chegada de mais um de seus rebentos e apressava-se em fazer o respectivo registro de nascimento no cartório.

Ieda Zanatta, hoje viúva Noveletto, que viveu algum tempo na casa dos nonos Dall’Acqua quando menina, conta que a nona Marina lhe queria muito bem e que a levava junto quando ia à vila de Casca para algum afazer. Caminhavam em silêncio, sem diálogo, mas com alegria. E Ieda ressalta que, a despeito da pouca comunicação verbal, a nona tinha um olhar muito carinhoso para com ela, e sua bondade ficou marcada para sempre na sua lembrança.

1918 –Família de Ângelo Dall´Acqua e Marina Sbardelotto em Casca. Atrás: Inês, Estér, Itália e Ersília. Na frente: Plínio, Alcides, Aurora, Onésimo, Ângelo, Ovídio, a esposa Marina Sbardelotto com Albertina no colo, Gelsomina, Ione e Anita. Ainda não eram nascidos: Clélia e Vitório.

Elsa Astolfi, hoje viúva Braga, viveu em casa dos nonos Dall’Acqua todo o ano de 1938, quando contava 13 anos, e conta que recebia da nona cuidados especiais. A menina parecia-lhe magrinha, pálida e sem vigor. Por isso, era induzida a tomar todas as manhãs uma caneca de leite recém-ordenhado e a consumir as cartilagens dos ossos de galinhas sempre que a carne dessa ave era servida nas refeições. Elsa lembra que uma vez, sentindo fome, buscou, com toda a naturalidade, um ovo no galinheiro, cozinhou-o a sua maneira e comeu-o. A nona, que sabia exatamente quantos ovos as suas galinhas punham diariamente, percebeu o destino tomado pelo ovo que faltava, mas nada falou para a neta, que buscara a melhor solução para sua fome.

Na casa dos nonos Dall’Acqua, todos tinham tarefas a cumprir. Clélia, a filha caçula, e Elsa, entre outros misteres, deviam ordenhar as vacas, providenciar o pasto, tratá-las e cuidar dos bezerros. Também ajudavam nos trabalhos da horta, e Elsa lembra de, no dia de finados daquele ano, junto com Clélia, ter feito a semeadura para a colheita de melancia, sempre atendendo os critérios da nona. Elsa lembra que, além de melancias, a família colhia melões, pepinos, vagens de feijões e ervilhas e diversos legumes, que reforçavam o cardápio diário, já que a carne, quase sempre de galinha, era servida apenas aos domingos.

Atenciosa com os filhos, Marina servia-se das frutas do pomar, principalmente de maçãs, peras e marmelos, para fazer doces em pasta. Como usava pouco açúcar, o doce devia ser bem cozido até formar uma massa compacta. Uma generosa fatia dessa marmelada era a merenda que Clélia e Elsa, que frequentavam o grupo escolar de Casca, levavam para consumir no recreio.

A mesma atenção era dispensada em relação aos problemas comuns de saúde da família: xaropes e chás caseiros, emplastros, purgativos, curativos, etc. eram soluções confiadas a ela.

Sempre que uma filha tinha um novo bebê ou estivesse enferma, lá ia Marina pronta para ajudar. Quando a filha Itália, que residia na Linha Colombo em Guaporé, fez duas cirurgias, uma em 1931, alguns dias antes do Natal, e a segunda no inverno de 1932, a nona permaneceu junto à família por longo tempo, ajudada por uma moça do lugar, Júlia Toni (depois casada com Frare). Permaneceu também junto à filha no momento mais difícil para todos, quando o marido de Itália, gravemente enfermo de tifo, quase perdeu a vida. Pelos registros diários de Ângelo Dall’Acqua, sabemos que Marina fazia-se presente sempre que uma filha precisasse dela e, quando não lhe era possível, mandava uma filha para cumprir a tarefa de prestar ajuda. Por isso, Anita e Albertina, cada uma a sua vez, participaram da vida da família de Itália e José Astolfi. Estiveram lá prestando sua ajuda nos cuidados com as crianças e no andamento das atividades domésticas. Tal auxílio era prestado igualmente a outras irmãs casadas, sempre que necessário.

Em 1946, Ângelo e Marina transferiram-se para Ponta Grossa, no Paraná, cidade onde residiam a filha Aurora e os filhos Plínio, Onésimo e Ovídio.

Foi em Ponta Grossa que nossa nona recebeu a única homenagem pública de sua vida. Era o ano de 1958. A prefeitura local havia instituído um concurso para premiar a mãe com maior prole viva do município. Marina foi inscrita pelo filho Plínio, e a ela coube a glória de receber o troféu de Mãe do ano.

Transplantada para uma terra estranha e tão distante da sua Casca, não se abateu; continuou a ser a mesma esposa e mãe e a mesma nona muito amada por todos. Assim era Marina Sbardelotto que, com Ângelo Dall’Acqua, deixou para o mundo as sementes de incontáveis gerações, presentes e futuras, marcadas pela dignidade e responsabilidade por sua história.

Marina Sbardelotto Dall’Acqua faleceu em Ponta Grossa, Paraná, em 1958, na casa de sua filha Aurora Busato, com quem residiu após a morte do marido. Partiu com a mesma serenidade e confiança que imprimiu aos seus 82 anos de vida.

Fim.