Memórias

Itália Dall’Acqua Astolfi nasceu em Bento Gonçalves, mais precisamente na Linha Palmeiro, colônia no 9, no dia 8 de dezembro de 1895. Faleceu em Novo Hamburgo no dia 23 de setembro de 1986 poucos meses antes de completar o 91o aniversário. Foi sepultada na cidade de Guaporé, no jazigo da família. Era filha de Ângelo Dall’Acqua, imigrante de 1878, natural de La Valle de Agordo, Província de Belluno, e de Marina Sbardelotto, de Feltre, também na Província de Belluno.

Mas deixemos que a própria Itália fale de si, transcrevendo trechos de suas breves memórias, escritas em 1984 e que relatam de forma singela sua trajetória entre nós.

Tenho pouca predisposição para escrever e nunca gostei. Lembro que quando meu pai ditava cartas ou eu devia escrever para alguém que tivesse tido uma gentileza para comigo, agradecendo, e me acontecia fazer um erro ou deixar cair um pouco mais de tinta, meu pai ralhava. Isso eu não achava certo e matou em mim, que era tímida, toda a vontade de escrever.

Nasci no dia 8 de dezembro de 1895 em Bento Gonçalves, mais precisamente na Linha Palmira, colônia no 9, numa casa bonita, branca, com vidros nas janelas, uma raridade na colônia naquela época.

Quando nasci estava tão fraquinha que meus pais não me registraram logo, não valia à pena, pois se eu morresse teriam de pagar um novo registro, o de óbito. Mas eu fui teimosa e venci. Então meu pai foi ao cartório para o meu registro de nascimento, e como havia passado o prazo legal, para não pagar multa, fui registrada como nascida em 14 de dezembro.

Minha mãe tinha pouco leite, mas com a ajuda de uma cabrinha leiteira que minha avó Joana, mãe de minha mãe, trouxe para nossa casa, consegui sobreviver e ainda estou aqui.

Meu Nonno

Meu avô, Giuseppe Dall’Acqua emigrou da Itália em 1878. Ao chegar à Colônia Dona Isabel, hoje Bento Gonçalves, comprou a colônia n°9 na Linha Palmeiro (que nós chamávamos Palmira) e lá se instalou com sua família.

Era bom pedreiro e conhecia também o oficio de carpinteiro. Construiu a nossa capela de São Miguel na Palmeiro e a casa do nosso vizinho Colognese, toda de pedra talhada.

Capela de São Miguel (o mesmo padroeiro de La Valle, Agordo) em linha Palmeiro, Bento Gonçalves.

Casa de Pedra construída por volta de 1880 pelo imigrante Giuseppe Dall´Acqua.

 

Minha avó, Ana Bonfardin, era boa dona de casa, boa cozinheira e econômica, sem deixar faltar nada em casa. Fazia queijo, cuidava da horta, fiava linho e lã e tricotava meias para nós, suas netas, para que não sentíssemos frio no inverno, ao ir para a escola. Pobre e querida nona,
como nos queria bem! Ensinava-nos as orações, ensinava-nos a fazer meias e a usar a agulha, mas também como era severa! E como essa severidade valeu para a nossa formação!

Infelizmente o nonno Giuseppe morreu prematuramente no ano de 1897. Eu não cheguei a conhecê-lo, contava menos de dois anos quando ocorreu a morte dele. Numa noite de inverno, ele voltava da casa de um amigo que morava um pouco longe da nossa. A certa altura enveredou por um atalho, já dentro da sua propriedade, para encurtar o caminho. Havia nesse caminho um valo por onde corria a água de uma nascente. Ele estava sozinho, deve ter escorregado e caído no valo; não pode mais sair. Certamente havia tomado um copo de vinho a
mais. A noite era muito fria, e na manhã seguinte foi encontrado morto.

Meu Pai

Quando meu pai, Ângelo Dall ́Acqua casou em 1895, 18 anos depois de ter vindo da Itália, a família já possuía uma boa casa de madeira com sobrado e janelas envidraçadas. Havia um quarto para meus avós no primeiro piso e uma sala grande. No piso superior, havia três quartos
grandes e um espaço, onde nós, pequenas, brincávamos.

Já tinham todas as construções domésticas necessárias como o galinheiro, o chiqueiro, também uma boa horta onde havia sempre verduras para a mesa e muitas flores, especialmente rosas e cravos. Havia laranjeiras, pessegueiros, uma nogueira e outras árvores frutíferas.

O estábulo era feito de pedra e madeira com cobertura de “scandole”. Na parte baixa havia lugar para vários animais; na parte de cima, guardava-se o feno e, separada por uma parede, havia a oficina de papai, que era carpinteiro e marceneiro.

Lá, em nossa antiga colônia, ainda existe o estábulo que ele construiu com a parte inferior toda em blocos de pedra.

Eu vi aquele estábulo há poucos anos, quando estive lá em companhia de minha filha Maria e do meu irmão, padre Vitório. Está ainda bem conservado, mesmo a parte de madeira, portas e janelas, tudo em perfeito estado, como sempre o vi quando era menina e ia com minha
mãe tirar leite das vacas.

Estrebaria construída pelos Dall’Acqua e até hoje existente na Linha Palmeiro, Bento Gonçalves, na colônia n° 9, onde se estabeleceram quando chegaram ao Brasil em 1878. Na trave que encima o vão da porta lê-se a inscrição: LI 3 OTTOBRE DELL’ANNO MDCCCLX

Papai também trabalhava fora. Mamãe, tio Giuseppin e tia Angelina cuidavam dos trabalhos da plantação para o sustento da família.

Esses primeiros anos da minha infância lembro-os com saudade. Tanto papai quanto mamãe eram muito bons, mas rigorosos ao extremo, especialmente meu pai. Desobediências, mentiras ou ser respondonas nem em pensamentos cogitávamos. Em nossa casa, sempre reinou
paz e harmonia entre todos. À noite, meu pai lia um livro de histórias para nós, enquanto fazíamos trança de palha de trigo. Mamãe e tia Angelina consertavam as roupas da família. Como era bom ouvir papai ler histórias!

Depois, meu tio se transferiu para Casca com a família, e mamãe teve de tomar conta de tudo e de todos. A Gelsomina e eu éramos suas auxiliares.

Nossa colônia foi vendida com a condição de continuarmos morando nela até que meu tio, em Casca, conseguisse um lugar para nós. Essa espera durou mais de um ano.

A oficina de meu pai

A oficina, como já disse, ficava no alto do estábulo (que ainda existe hoje). Lá meu pai trabalhava e guardava a sua ferramenta de profissional em carpintaria e marcenaria. Era um local espaçoso e muito agradável.

Eu, criança ainda, ficava horas e horas vendo-o trabalhar. Ainda tenho em meu poder um martelinho que ele usava para bater o gesso e fazer estuque para fixar os vidros nas janelas.

Eu ficava feliz quando o pai me entregava o martelo e me incumbia de bater o gesso com óleo para formar o estuque.

Assuntos Religiosos

Pouco depois da morte de meu nono Giuseppe Dall’Acqua, veio da Itália, creio que do Norte, um pastor evangélico metodista para cuidar das almas dos habitantes da Colônia Isabel. Chamava-se Mateus Donatti e deixara na Itália mulher e filhos.

Meu pai, que trabalhava muitas vezes na vila, na sua profissão de marceneiro, tinha lá muitos conhecidos e amigos. Muitos deles haviam aderido à religião do mencionado pastor. O pai deixou-se convencer e, em pouco tempo, filiou-se àquela religião e a levou a sério. O pastor Donatti vinha muitas vezes à nossa casa, que distava oito quilômetros da Vila. Vinha acompanhado de amigos, todos a cavalo.

Eu não gostava do pastor, apesar dos presentes que ele me trazia. Talvez fosse porque a nona, mãe de meu pai, não aceitasse de forma nenhuma a mudança religiosa do filho. Era ela quem me ensinava as orações. Por imposição de papai, ela só podia nos ensinar o Pai Nosso e o Glória. A Ave Maria fora proibida.

A nona obedeceu ao filho, e a Ave Maria eu aprendi mais tarde, em Casca, quando ia à casa do tio Luís, irmão de meu pai. A tia costumava rezar o terço todas as noites com a família e então aprendi essa oração. Meu pai nem ficou sabendo. A nona já não estava conosco, tinha
ficado na casa da filha Ângela, casada com De Maman, na Linha Colombo, por ocasião da nossa mudança.

Não sei que idade eu tinha, talvez cinco ou seis anos, quando meu pai nos levou todos a Dona Isabela, à igreja evangélica. Eu, a Gelsomina, a Aurora, que devia ter menos de um ano, e o Vitório, que morreu depois com quase três anos.

Eu olhava aquele grupo de pessoas reunidas perto do pastor, todas de pé. A mamãe veio para o banco onde a Gelsomina e eu estávamos sentadas para nos buscar e levar para o grupo que rodeava o pastor. Eu não entendia nada do que se passava, mas como sempre fui muito
acanhada, decidi não sair daquele banco, segurei-me nele com toda a minha força, até que a mãe finalmente desistiu do seu intento e deixou-me ficar naquele lugar.

Mais tarde, já casada, perguntei à mãe para que finalidade havíamos ido, naquela ocasião, àquela igreja. Fiquei então sabendo que fôramos levados para receber o novo batismo das mãos do Pastor Donatti.

Eu fui batizada católica. A minha madrinha foi Rosina Cecconelo, quando ainda solteira, amiga e vizinha da família de minha mãe. Minha madrinha casou depois com Luís Colombeli. Meu padrinho foi Cassiano De Zorzi, casado já com Madalena Olivier.

Vinte anos mais tarde, meu padrinho se transferiu da Linha Palmeiro, com a família, para Casca, onde estávamos morando há alguns anos. Estabeleceu-se perto de nossa casa e foi um bom vizinho e amigo por toda a vida.

Primeiras lembranças

A primeira lembrança da minha meninice se refere à morte de um irmãozinho, Vitório, com dois anos e meio.

Caiu na calçada, em frente de nossa casa, batendo a cabeça numa pedra. Fez uma ferida pequena que infeccionou. Nove dias depois o pequeno morreu.

Meu pai procurou recursos, mas não havia médico e não foi possível salvar o filho. Ainda me lembro de como mãe enfeitou o caixãozinho com tudo o que podia para embelezá-lo. Ultimo carinho ao filhinho morto. Naquela época eu contava cinco anos. Mais tarde morreu o Ramiro, filho do tio Giuseppin e da tia Angelina.

Um dia, indo às compras a Gelsomina e eu (éramos inseparáveis) – íamos ao Colombelli – passando ao lado do parreiral do nosso vizinho, paramos e tiramos um cacho de uvas cada uma e seguimos nosso caminho tranquilamente. Acontece que o tio Giuseppin nos viu. O tio e sua
família moravam conosco na grande casa. Bem, o tio, na nossa volta, nos esperou no caminho de casa, com a famosa vara na mão, vara que estava sempre pronta num cantinho da cozinha.

Ralhou, disse-nos uma porção de coisas e no fim nos fez ajoelhar e pedir perdão e prometer de nunca mais roubar uva ou outra coisa que fosse. Não usou a vara, mas a lição jamais foi esquecida por nós duas.

Outro fato que nunca esqueci e, ainda agora, quando lembro me faz rir é o dos ovos quebrados; minha avó era muito econômica e cuidadosa com tudo. Um dia encontrou uma ninhada de ovos que uma galinha tinha posto em lugar escondido, em cima do chão de terra. Como os ovos
estivessem sujos, mandou nós duas lavá-los numa fonte, onde mamãe lavava roupa. Ficava um pouco distante da casa. Quando eu estava lavando, um ovo quebrou em minhas mãos. Fiquei assustada, com medo de apanhar. Como num pedaço de casca tivesse ficado um pouco de ovo, pedi à minha irmã Gelsomina que levasse aquele resto à avó, talvez pudesse aproveitá-lo. Aquele gesto, para mim, serviria para que a avó estivesse prevenida antes de me ver a sua frente. Seria como amainar o temporal. Daí a pouco a nona apareceu com a vara na mão e me perguntou: – Como fizeste para quebrar aquele ovo? Eu, toda nervosa (estava lavando outro ovo) respondi que não fora por querer, que o estava lavando: – assim… e quebrou! Nesse momento, quebra o ovo que eu tinha nas mãos. Não por minha vontade naturalmente. Foi de tão nervosa que eu estava.

Aí a nona não falou mais, virou as costas, talvez escondendo sua vontade de rir, e voltou para a casa com sua vara na mão. Nunca mais falou daqueles ovos quebrados.

Além das aulas, minha irmã e eu tínhamos que buscar pasto para nossas vacas leiteiras. Subíamos um morro e íamos colhendo as ervas boas até encher dois cestos de taquara, pendurados, um de cada lado, num selim de madeira próprio para isto, posto no lombo da nossa burrica, que chamávamos de “mussa”. Quando nos entretínhamos nos brinquedos próprios da idade, os cestos voltavam para casa mais leves, mamãe via, mas não dizia nada.

Nossos pais eram muito bons, mas também muito rigorosos. A obrigação era verdadeiramente obrigação. Eles nos ensinaram a trabalhar desde cedo. Ensinaram-nos a agir com sinceridade e honestidade para com todos e sempre. Por isso tudo, eu agradeço a Deus pelos pais que nos deu.

E à memória de meus pais devo reconhecimento por tanto carinho e amor recebidos.

A primeira escola

Aos seis anos minha mãe me levou à escola. Ficava bem perto da nossa casa. Em pouco tempo aprendi a ler, escrever não tanto, meus borrões eram tão numerosos que meu pai se aborrecia muito, dizia que era muito distraída. A matemática foi minha grande aflição. Não
conseguia aprender a tabuada naquele quadradinho que era a “tavola pitagórica”. Por isso minhas contas de multiplicar saíam sempre erradas. Enfim, em três anos incompletos aprendi a ler corretamente, a escrever mais ou menos e a fazer contas mais ou menos certas.

A minha escola era subvencionada pelo governo italiano, e as aulas eram dadas em língua italiana. O vice-cônsul, Sr. Luigi Petrocchi veio uma vez visitar nossa escola, e quatro alunos, dois meninos e duas meninas, foram encarregados de ler uma saudação ao ilustre visitante. Eu li a primeira parte da saudação, já ensaiada, uma página inteira. Não sei se foi meu sétimo ou oitavo ano de idade, mas sei que me senti muito feliz por ter sido escolhida, e, por me terem dado a primeira parte, mais ainda me senti feliz.

Três anos frequentei aquela escola. Quando tive que deixar, fiquei muito triste. Com muita pena me despedi do meu professor. Chamava-se Zaccaria e era aleijado de uma perna. Senti muito a falta da escola. Já lia correntemente, tinha boa memória para decorar poesias e contar histórias que eu lia nos livros. Para mim foi uma descoberta o dar-me conta de lendo um livro, eu ficava conhecendo fatos e histórias de outras pessoas, embora existissem apenas no papel. Meu pai possuía muitos livros e, de vez em quando, fazia uma escolha e me dava algum livro que eu lia e guardava com muito carinho. O primeiro livro recebido de meu pai foi “Guilherme e seu cão piloto”, que me encantou. Dali por diante, a leitura foi o meu maior prazer.

Capa do livro. Fonte: internet. O personagem principal chamava-se Guilherme

Meu pai em Bagé

Em 1903, a convite de um compadre, o Senhor Silvestre Benvegnu, morador de Dona Isabela e também adepto metodista, meu pai foi trabalhar em Bagé, onde o Senhor Silvestre e a esposa Margarida, haviam se transferido com a família.

Meu pai ficou hospedado na casa desses amigos, que eram gente muito boa. Ficou lá pouco mais de um ano, trabalhando na construção de uma charqueada, na parte de madeira naturalmente.

A mudança para Casca – 1903

Nesse tempo, meu tio José tinha-se transferido com sua família para Casca, propriamente na Linha 18, a cinco quilômetros da vila. Tinha requerido uma colônia para ele e uma para nós.

A colônia da Linha Palmeiro foi vendida ao Sr. José Longhi. Em realidade, ficou para os tios Mateus Dall’Acqua e Nano Gasperin, cunhados do Longhi, um, irmão de meu pai, o outro, cunhado, casado com a tia Anneta.

Eu tinha nove anos incompletos quando saímos da Palmira para Casca- 2o distrito do município de Guaporé. O transporte foi feito em lombo de burros cargueiros da tropa que tio Antônio De Maman pôs à disposição de meus pais. Móvel nenhum foi transportado. A mudança só poderia ser feita daquela maneira. A estrada até o Rio das Antas era regular. Passado o rio, subindo o morro, só havia um trilho; os animais só podiam andar um atrás do outro. Mamãe ia montada num cavalo, como os outros; minha nona, a cavalo da mussa. Nós meninas, eu e a Ersília, dentro de um cestão de taquara, e a Gelsomina e a Inês, dentro de outro, pendurados um de cada lado, à cangalha de madeira, posta no lombo do animal mais manso da tropa. As irmãs, Ester e Aurora, tinham ficado em casa de nossos avós maternos. Mais tarde foram reunidas à família em Casca.

A viagem decorreu sem problemas, não se contando o terrível cansaço e o desconforto de nós, pequenas dentro daqueles cestões, durante três dias, ainda que no segundo dia chegássemos à morada do tio Antônio De Maman a oito quilômetros antes da vila de Guaporé, sede do município. Casca ficava a cinquenta quilômetros ao norte. Na passagem do rio Alcântara, a nonna Ana Bonfardin pregou um susto em todos: ela quase cai na água. O rio estava alto e ela teve vertigem. Felizmente, um dos homens viu e a segurou em tempo.

Em casa dos tios De Maman ficamos uma semana. A nona não continuou viagem, ficou morando lá, em companhia da filha Ângela. Mais tarde veio para a nossa casa, onde faleceu muitos anos depois (1915).

Regresso de Bagé

Em fevereiro de 1904, meu pai retomou de Bagé. Morávamos já em Casca junto à família do tio José. Papai logo deu início à construção da casa no nosso lote de n°14, o de tio José era o de n°13. Nossos vizinhos eram Rissieri Salvador, colônia n° 11, Valentin Franco, colônia n°12, na de n°16 veio pouco tempo depois João Carlotto, que todos chamavam de Furlan, Esse casal, João e Marietta, tinham vindo da Itália no mesmo navio em que vieram os meus sogros e também vieram da mesma localidade.

Casa construída por Ângelo Dall’Acqua em Casca e na qual a família morou de 1904 a 1909. À porta, a nonna Anna Bonfardin fazendo trança de palha de trigo. Depois, Ângelo construiu uma casa maior, próxima à vila para que as crianças pudessem frequentar a escola.

Papai continuou trabalhando fora. Construiu a casa do tio De Maman na Colomba (Linha Colombo) e depois a do comerciante Alegretti da Linha 1o de Março. Mais tarde, nós fomos morar em outra casa, próxima à vila, para podermos frequentar a escola. Era o ano de 1909, eu contava 13 anos.

Em Bagé, meu pai deixou sua religião metodista. Retornou ateu. Não acreditava mais em nada e continuou assim por muito tempo.

A nona Anna, que voltara a viver em nossa família, em Casca, preocupava-se com a educação religiosa de seus netos. E andava muito desgostosa com a situação religiosa imposta pelo filho.

Um dia, armou-se de toda a sua autoridade de mãe e falou francamente perguntando ao filho o que ele contava fazer em relação a nós, filhos mais velhos, já no tempo de fazer a primeira comunhão e completamente ignorantes do catecismo.

Ele defendeu suas ideias, mas a velha mãe não esmoreceu e insistiu na sua posição. Por fim, fez a seu filho uma pergunta, que foi decisiva:

– E com quem é que tu pretendes casar as tuas filhas, sem religião?

Aí o papai ficou sem palavras e com muita má vontade disse: – Bem, fé voi quel che volé e encerrou o assunto. A esta cena entre mãe e filho eu também assisti.

Na mesma tarde, a nona nos levou, a Gelsomina e eu, à vila de Casca e falou com o padre que nos incluiu na turma que se preparava para a primeira comunhão. Frequentávamos a igreja assim como podíamos, em vista dos muitos serviços que exigia a nossa família numerosa. Papai nunca mais fez oposição à pratica religiosa, mas permaneceu firme nas suas ideias.

Nosso Senhor, porém, tem meios de chamar os renitentes ao caminho. Quando do nascimento de minha irmã Albertina, mamãe teve complicações muito sérias. A criança não nascia. Não havia médico em Casca. Mamãe era assistida pelas vizinhas: minha tia Regina, minha
madrinha e a boa Antônia.

O caso tornava-se desesperador. A tia Regina vendo que poderia ocorrer a morte, perguntou à mamãe se gostaria que chamassem o padre. Ante a resposta afirmativa, a tia falou com meu pai que imediatamente consentiu. Talvez fosse esta a última vontade de sua esposa.

Era já tarde da noite. O padre Zanella veio e cumpriu sua função. Passado algum tempo, a criança veio ao mundo, mas mamãe levou muito tempo para se recuperar.

Casca

Em Casca não fomos bem-sucedidos nos três primeiros anos. Trabalhávamos na roça. No primeiro ano tivemos uma seca terrível. Não colhemos sequer uma espiga de milho. Minha mãe anotou o dia da última chuva, quando o milho já estava crescidinho: 4 de novembro de 1904. Até o mês de abril não choveu mais. O nosso milho secou em pé. Nós, meninas, o cortávamos para dá-lo como pasto às vacas. Ao menos, tínhamos leite.

No ano seguinte, vieram os gafanhotos e em tal quantidade que, em poucos dias, acabaram com o nosso milharal.

No terceiro ano vieram mais gafanhotos: não restou um pé de milho. Felizmente, no meio do milho, tínhamos uma plantação de abóboras, que os gafanhotos não comem, assim como não comem o feijão. Três anos sem uma espiga de milho. Não se encontrava nem para comprar, porque nossos poucos vizinhos estavam nas mesmas condições que nós.

Assim conseguimos atravessar a vida até os meus treze anos: vagens, abóboras e pinhões nos ajudaram a vencer aquela temporada. Meu pai trabalhava construindo uma casa grande, como era costume naquele tempo, para servir de loja para o tio De Mamam. Fez outra para o
mesmo fim, na Linha 1o de Março, para o Sr. Alegretti. Assim trazia para casa os mantimentos indispensáveis à família.

Outra vez a escola

Por essa época, 1908, meu pai construiu uma casa, situada mais próxima à vila de Casca, na colônia no 11, e para lá nos mudamos, a fim de que nós, crianças, pudéssemos frequentar a escola. Com quanta alegria me apresentei na escola do professor Busato! Era metade de março.

Minha alegria devia durar pouco. Só tive quatro dias de aula. O professor, por causa de uma hérnia estrangulada, depois de uma semana de dores, faleceu. Era um ótimo professor, tinha-se formado em Porto Alegre.

Começou então a luta para conseguir outro professor para Casca. Só o tivemos dois anos depois. Veio de São Lourenço, chamava-se Emanuel Simon, de origem alemã. Veio acompanhado da esposa e de uma criança. Era o mês de agosto. Retornei à escola e aproveitei aqueles bem aqueles meses, até dezembro. Como o professor tivesse mais de setenta alunos, achou que não poderia continuar ensinando aos maiores de quinze anos, como no meu caso. Então fiquei em casa, trabalhando com a família.

O professor Pedro Simon não ficou em Casca, a mulher dele não gostava do lugar e um belo dia deixou o marido, naturalmente com o consentimento dele, e foi para a casa dos pais. O professor ficou em Casca mais alguns meses e depois se transferiu para Corvo, Lajeado, onde lhe designaram outra escola. Ali, a família se reuniu novamente.

Enquanto isso, o tempo foi passando e nada de conseguir outro professor para a escola de Casca.

Preparação para professora

Surgiu então, a ideia de aproveitar a capacidade de algumas moças ou rapazes que tivessem certo grau de instrução para ensinar as crianças. Já que do governo não havia esperanças, os pais de família apelaram para o próprio meio.

Um dia, meu pai chegou a casa e contou que, conversando com amigos, foi-lhe perguntado se não seria possível arranjar uma moça um pouco mais instruída para tomar conta e ensinar àquelas crianças que não tinham a possibilidade de aprender a ler e escrever seu nome. O fato é que meu pai me mandou para a casa de meus tios De Mamam, na Linha Colombo, para frequentar a escola do lugar, da professora Amábile. Essa professora era municipal, tinha estudado com as freiras, mas estava longe de ter o nível de preparação dos meus professores precedentes.

Eu queria ser professora, foi sempre o meu sonho. Estudei e aprendi o que foi possível. No ano seguinte, voltei para casa para ensinar o meu trabalho de ensinar as meninas a ler, escrever e fazer contas.

Professora em Casca

Assumi a escola em Casca, como professora municipal, só para as meninas, com o ordenado de 50.000 réis. Meu pai alugou uma casa com bastante espaço: sala de aula, dois quartos, cozinha e outra sala que foi dividida e lá instalada a Agência do Correio de Casca, para qual meu pai fora nomeado agente.

Começou minha nova vida: de manhã, a lição às meninas, cerca de 40 ou 50. As maiores já tinham alguma noção de leitura e as pequenas não conheciam nada de escola. Estas foram as minhas melhores alunas. Aprendiam ligeiro a ler, com exceções naturalmente. As pequenas
estudavam com mais vontade; as maiores tinham obrigações de trabalho também em casa e gostavam de sair em grupos de amigas, de modo que a escola não era tão apreciada quanto o era pelas pequenas. Quando olho para a fotografia delas que eu quis fazer antes de me casar, fico
cismando: o que terá acontecido com elas? De uma eu recordo de modo especial. Era filha adotiva de um casal um tanto idoso de polacos que não tinham filhos. Eles criaram essa menina como se fosse própria filha. Era bem escura de pele, de feições bonitas, um encanto de menina,
sempre alegre e boa. Deve ter assimilado na sua alma todo o amor que os pais adotivos lhe dedicaram. “Maria Glória Portasinski é teu nome, e sei quanto bem sempre me quiseste! ”.

Lecionei durante cinco anos às minhas meninas. Para os meninos viera um professor. Não era formado, mas tinha boa preparação e muita capacidade para ensinar aos marmanjos. Tinha esposa e dois filhos. Depois nasceu uma menina, Nilza, minha afilhada de crisma. O professor, também municipal, ganhava 75.000 réis, naturalmente por estar casado e com filhos. O correio passou às mãos de meu cunhado Maximino, e eu não quis mais morar na vila.

Nossa casa distava mais ou menos três quilômetros de Casca. Assim voltei para casa e passei a ir todos os dias, de manhã, a pé ou a cavalo, lecionar em Casca. Gostava muito de ensinar, e as minhas alunas gostavam de vir à escola. Lamentava, e lamentei sempre, não ter tido a
oportunidade de estudar mais e poder me formar professora de verdade. Infelizmente não foi possível. Por essa época, minhas irmãs tinham casado: a Gelsomina com Maximino Busato; a Aurora com Luís Busato. Eu também estava de casamento marcado.

Imagem de Casca no ano de 1915. Ao fundo, à esquerda, marcada com uma seta, a casa onde funcionava a escola.

A gripe espanhola

Em 1918, creio que pelo fim, não lembro, surgiu, e continuou em 1919, a gripe espanhola, como era chamada. Muita gente morreu. Eu também adoeci lá pela metade do ano, embora a gripe não me tenha atacado com muita violência, mas não havia maneira de me recuperar, não tinha apetite. Um dia tive a intuição de que com vinho poderia melhorar. Meu pai fazia vinho de uva do nosso parreiral que era muito gostosa. Eu comia muita uva, mas não gostava de vinho e nunca tomava. Quando vi que não podia recuperar a saúde estragada pela gripe passei a tomar, ao almoço, um centímetro de vinho num copo e quando não podia engolir a comida, molhava a boca com vinho e conseguia então comer. Desta maneira, recuperei a saúde, mas levei muito tempo.

Retorno à Religião

Meu pai estava com a saúde abalada. A doença dos olhos progredia e por fim viria a cegueira. Papai andava desanimado. Em Casca não havia médico que poderia curá-lo. Resolveu então viajar a Porto Alegre e tratar-se na Santa Casa de Misericórdia. Era o mês de fevereiro de 1933.

Na Santa Casa, foi operado dos olhos e lá ficou em tratamento quase cinco meses. Quando retornou a Casca estava recuperado.

Um dia, como de costume, recebeu, no hospital a visita de um grande amigo que muito o ajudou no período de doença. Era o Sr. Benvenuto Crocetta. Estavam os dois conversando no quarto, quando entrou uma freira que perguntou a meu pai se queria fazer a confissão e comunhão de obrigação naqueles dias da semana santa. Antes que o meu pai respondesse, o amigo Crocetta se adiantou e disse: – Sim, sim, este é o nosso costume!.

Meu pai não teve coragem de desdizer o amigo e, após muitos anos, cumpriu seu preceito pascal.

Em sua viagem de volta a casa, fez uma parada em nossa casa, na Linha Colombo, e contou-me o fato. Estava ele realmente satisfeito. Dessa data em diante sempre praticou religião.

Atividades de meu pai

(Construtor, carpinteiro e marceneiro)

Meu pai era hábil e competente profissional. Muitas obras por ele construídas existem até hoje. Frequentemente ausentava-se de casa para trabalhar em localidades às vezes muito distantes. Assim, participou da construção de uma charqueada em Bagé, onde permaneceu mais
de um ano. Com o dinheiro que ganhou por seu trabalho em Bagé pôde pagar a terra comprada em Casca.

As esquadrias da Prefeitura de Bento Gonçalves foram feitas por ele, não lembro mais em que ano.

Ele trabalhou na construção de muitas igrejas da região Italiana. Ajudou a construir a igreja de Parai, um lugar bastante longe de sua casa. O altar dessa igreja foi feito por meu irmão Plínio. Era Vigário de Parai, nessa época, o Padre Busatta.

O Padre Vigário de Parai, quero dizer, o atual, que escreveu um livro, cita Ângelo Dall’Acqua como um dos que trabalharam na construção da igreja.

Em 1938, ele desenhou a planta e comandou a construção do Grupo Escolar de Casca. Era prefeito de Guaporé nessa época o Dr. Manoel Francisco Guerreiro.

Meu pai construiu muitas casas no município de Guaporé e fora dele. Além disso, fazia por encomenda, móveis muito bonitos e muito bem acabados, esquadrias e qualquer outro trabalho em madeira. Ele era um profissional muito competente e sério. O que ele fazia sempre tinha um toque de arte. No fundo, ele era, na verdade, um artista.

1938 – O grupo escolar de Casca em construção.

 

Outras Atividades

(Agente consular, Agente do Correio, Fiscal Municipal, Juiz Distrital e Correspondente de Diversos Jornais).

Por alguns anos foi meu pai agente do Correio em Casca. Alugou, na vila, uma casa onde instalou a agência postal e, numa outra sala, a aula, ou seja, a escola, onde eu ensinava as meninas. Mas papai não ficou muito tempo nessa atividade, e o Correio de Casca passou às mãos de meu cunhado. Máximo Busato.

Foi também Agente Consular do Governo Italiano, cargo que desempenhou durante 28 anos, unicamente em caráter honorário, sem receber nenhum pagamento, porém aborrecimentos não lhe faltaram.

Certa vez, o Cônsul Giovanni Beneverini, que residia em Porto Alegre, fez uma visita à colônia italiana do Estado. Em Casca, ele passou quase no fim de sua longa viagem. Papai reuniu as autoridades para recebê-lo e depois, na despedida, acompanhá-lo, em direção a Passo Fundo,
onde tomaria o trem para Porto Alegre.

Naquele tempo a área do município de Guaporé era muito grande. Então o intendente dividiu a área em duas regiões, encarregando meu pai de fiscalizar a região Norte. Ele devia visitar todas as casas de comercio e as indústrias e verificar se estavam em dia com os impostos exigidos pela lei. Essas visitas como Fiscal Municipal, papai as fazia a cavalo.

Por vários anos, exerceu o cargo de Juiz Distrital do 2o distrito de Guaporé. Foi nomeado por Borges de Medeiros em 17 de junho de 1919. Ainda existem em mãos de meu irmão Plínio Dall’Acqua, os documentos originais nomeando o pai para esse cargo e do qual pediu exoneração anos mais tarde. Era um cargo sem remuneração e que lhe trazia perda de tempo e aborrecimentos.

Foi correspondente de alguns jornais, como o “Giornale d’Itália”, “A Nação”, “Correio Riograndense” e outros.

Meu pai mantinha correspondência muito assídua com seus filhos e filhas casadas, com seus irmãos, sobrinhos, netos, demais parentes e com alguns bons amigos que teve durante toda sua vida. Nunca deixou de responder uma carta ou cartão recebidos de quem quer que fosse.

Anotava, em cadernos especiais, o envio de cartas: a data, o destinatário, o resumo do conteúdo e o dia da postagem. Houve uma época em sua vida em que ele transcrevia por inteiro as cartas que escrevia, especialmente as que eram destinadas aos filhos, parentes e amigos. Também as cartas relativas ao seu trabalho de agente consular eram passadas para um caderno especial.

Mudança para o Paraná

Os anos foram passando, os filhos tomando seu rumo. Só ficaram em casa os dois últimos;
Vitório e Clélia.

O genro, Luís Busato transferiu-se para Ponta Grossa, no estado de Paraná, e convidou os sogros a morar com ele. Meu pai não aceitou e continuou na sua terra e na sua casa. Porém, Vitório ingressou num seminário em Ponta Grossa com os estudos pagos pelo cunhado Busato,
e Clélia foi passar uma temporada na casa da irmã Gelsomina em Santa Catarina.

Só alguns anos depois, papai e mamãe mudaram-se para Ponta Grossa. Depois de 1945, ano em que comemoraram as bodas de ouro. O meu irmão Vitório já estava no seminário de Caxias, e a Clélia havia casado com Walter Linzmayer de Santa Catarina.

Por ocasião das Bodas de Ouro de Ângelo Dall’Acqua e Marina Sbardelotto Dall’Acqua em 1945, Benvenutto Crocetta e Theresa Crocetta, seus queridos amigos, publicaram esta homenagem, ressaltando as virtudes do casal Dall’Acqua.

Últimos dias e morte de meu pai

Viveu seus últimos anos no Paraná, em Ponta Grossa, na casa da filha Aurora, casada com Luís Busato.

Começou a sentir dores e enfraquecer cada vez mais. Um dia, o médico constatou que estava
com câncer no aparelho digestivo. Já estava então completamente cego. Ficou dois meses acamado. Morreu no dia 20 de novembro de 1952. Manteve-se lúcido até o último momento. Fez uma morte tranquila, assistido pelo padre Vigário e por seu filho Vitório, que se ordenaria padre 20 dias após. Contava 86 anos.

Meu casamento e minha entrada na família Astolfi

Meu casamento deveria efetuar-se em 11 de agosto, mas a gripe apanhou também o meu noivo. Ele ficou muito mal e em agosto não se encontrava ainda em condições de viajar da Colomba, onde morava, a Casca. A distância era de 60 quilômetros e o único meio de condução,
o cavalo. Em nossa casa ignorávamos a doença dele e estávamos sem nenhuma notícia. Quase às vésperas do casamento, meus pais e eu estávamos inquietos – o pai, desconfiado ante o silencio do futuro genro. Finalmente consegui me comunicar com ele por telefone, tomei então conhecimento dos fatos, e marcamos nova data: 27 de setembro. Era o ano de 1919.

Entrei na família Astolfi, composta de minha sogra Teresa, viúva, um cunhado dela, solteiro – Barba Gigio –, outro cunhado, um tanto retardado e solteiro – Pedro) –, o cunhado Doro, sua mulher Silene Lodi e os dois filhos, Silvino e Leonora, o cunhado Benjamin, sua mulher
Júlia De Maman – minha prima – e sua filha Vilma. Minha sogra era uma mulher boníssima. Para mim, ela foi uma verdadeira mãe. O amor que ela tinha para com seu filho, ela o teve para mim também. E eu o retribuía de todo o coração.

Itália Dall´Acqua e José Astolfi no dia de seu casamento.

A cooperativa

No mês de março, dois meses antes de nascer o nosso segundo filho, foi fundada a Cooperativa Dona Cândida. Recebeu este nome por ter sido instalada na colônia n° 1 da Linha Dona Cândida, vizinha da linha Colombo, ou Colomba como todos a denominavam. Um grupo de
50 colonos se reuniu e cada um entrou com 200.000 réis, perfazendo o capital de 10 contos de réis.

Em 1923, o dinheiro valia mais do que hoje. Meu marido foi eleito o gerente, e o Sr. Luciano Censi, homem já de certa idade, presidente. O advogado, Dr. Manoel Francisco Guerreiro, veio presidir a reunião de inauguração, lavrou a ata e entregou a cada sócio um livrinho, onde constavam todos os artigos da sociedade, especificando os direitos e as obrigações dos sócios.

Nossa família possuía uma casa desabitada, velha, mas ainda boa. Lá foi instalado o negócio. Mandou-se fazer balcões e prateleiras que em pouco tempo se encheram de mercadorias. E a cooperativa Dona Cândida começou a trabalhar. No começo fazíamos compras pequenas; com o tempo, porém, obtivemos todos os artigos de que o colono necessitava para as lides agrícolas e para a família naturalmente. Havia tudo, em pequena escala é verdade. Vendíamos tecidos, miudezas, secos e molhados: sal, açúcar, sulfato de cobre, cal, ferramentas para a lavoura, pregos, etc.

Como entre os sócios não havia uma pessoa capacitada para fazer a contabilidade, fui designada para esta função. Naquele tempo, a escrita era simples, eu não tive problema nenhum em executá-la. Para mim, foi fácil. Menos fácil foi coordenar as minhas atividades na Cooperativa
com as obrigações domesticas. Duas crianças pequenas e todo aquele trabalho: atender os fregueses, fazer contas, pagamentos etc. o trabalho foi se tornando muito pesado para nós, e os filhos ficavam em segundo plano. Comprávamos todos os produtos coloniais dos sócios e os
mandávamos para Muçum. Depois veio a era dos caminhões, que tomaram conta dos transportes.

Eu gostava do trabalho, mas quanto desgosto sofremos; quantas incompreensões, desconfianças e suspeitas por parte de alguns sócios, e a má vontade de algum outro que julgava não ter recebido pelo seu produto um pouco mais do o que o preço estabelecido. E muitos pagavam a conta de suas compras só no fim de um ano ou quando tivessem dinheiro.

Nessa época, fazíamos as refeições na casa da minha sogra. O Plínio era pequeno, nasceu a Zélia e, em 1925, a Elsa. Estes três nasceram na casa da cooperativa, que na parte superior tinha três quartos bastante bons, mas não bonitos.

Foi nesse ano de 1925 que meu tio, Antônio de Maman, pôs à venda a sua casa de comércio e a mercadoria ainda existente. Falou ao presidente da Cooperativa Sr. Luciano Censi. Reunido o Conselho, todos apoiaram a ideia da compra da casa, efetuada por 25 contos de réis.

Seguiram-se as escrituras da compra. Porém, o tio pediu para ocupar a casa até o dia 25 de janeiro quando sua casa nova estaria terminada e em condições de receber a família. Mas minha tia adoeceu de tifo. Impossível a mudança. De nada adiantaram os meus rogos e os do meu marido para que não tivessem pressa de se mudar, que esperassem até a tia estar restabelecida e em condições de se transferir para a nova casa sem o perigo de uma recaída. Mas meu tio ouvira um membro da Cooperativa queixar-se porque a mudança não havia sido feita na data estabelecida e ficou tão ofendido que não hesitou: quando a mulher apresentou alguma melhora, apressou-se em fazer a mudança. A recaída não se fez esperar e, em poucos dias, minha tia foi levada ao cemitério.

A nova casa

Em 25 de fevereiro de 1926 transferimo-nos para a nova casa. Era uma casa bem construída, aliás, fora construída por meu pai. Era grande, com seis bons quartos no andar de cima. Em baixo a loja, o escritório, a sala de refeições. A cozinha era separada, mas ligada a casa por um corredor. Só que em matéria de comodidades como hoje as conhecemos, não havia quase nada: não havia luz elétrica, a água era tirada do poço, a roupa era lavada no arroio ou no tanque dos vizinhos, que nem eram tão vizinhos.

Mais tarde, minha sogra veio morar conosco, já doente de câncer. Viveu, sofrendo muito, mais três anos. Pouco depois da vinda da sogra, também Pedro veio para a nossa companhia. Continuei com o trabalho de sempre. Na cozinha, uma empregada, quando se podia encontrar.
Pedi então à minha mãe que deixasse uma das minhas irmãs ficar comigo para me ajudar. De fato, ora uma, ora outra vieram me auxiliar. A Ersília ficou bastante tempo, depois voltou para casa e casou; veio a Anita, que foi a que mais me ajudou. Ficou em nossa companhia cinco anos. Por fim, retornou a casa, arrumou um namorado e casou. Nós fomos padrinhos de casamento. Hoje ela está morta já há alguns anos. Na última vez que estive com meu cunhado, comoveu-me ouvi-lo falar da esposa morta, dizia: “Aquela santa”! Agora, também ele está morto.

Depois de trabalhar dezessete anos para a Cooperativa, meu marido estava tão desgostoso e cansado que reuniu os sócios e pediu que escolhessem outro gerente. Ninguém aceitou a ideia e nem o cargo. Queriam que ele deixasse em seu lugar o nosso filho, Mário, de 18
anos, mas meu marido respondeu que em hipótese alguma deixaria o filho tomar conta do negócio. Era muito jovem para tanto peso.

Ao terminar o ano, na ocasião em que foi apresentado o balanço de costume, os sócios propuseram ao meu marido que comprasse as partes de todos eles. A essa altura, já não havia cinquenta sócios, alguns tinham morrido, outros tinham retirado a sua parte dos lucros e saído
para outros lugares. Todos sabiam que era difícil vender as ações. Meu marido comprou algumas, não lembro quantas, de modo que ficou com mais ações que os outros dentro da sociedade. Um dia, mais tarde, concluíram o negócio, entrando também a casa com o terreno pelo mesmo preço que fora comprada: vinte contos de réis. Comprou contra a minha vontade, de nada valeram as minhas razões. Eu não queria mais ficar naquele lugar que tanto me fizera sofrer.

Aqueles anos em que morei na Colomba foram os mais tristes da minha vida: trabalho sem descanso, e doenças. A primeira foi uma pneumonia que quase me levou ao cemitério quando o Plínio contava pouco mais de um mês de vida; quando a Zélia contava um ano, tive tifo. Mas as crianças estavam com saúde. Na loja tínhamos a ajuda de um rapaz, o Angelim, que veio para a nossa casa com 14 anos e saiu com a idade de fazer caminho na vida por conta própria. Foi grande o auxílio que tivemos dele. Com o intervalo de seis meses, fiz duas cirurgias serias. Depois tive a dor de perder o filhinho Gastão que contava apenas duas semanas de vida. Mais tarde, um outro o seguiu: o Bruno, Estes dois, Deus levou, como também levou minha sogra.

A venda da Casa

Um dia, ao voltar da capela da Linha São Roque, a poucos quilômetros da nossa, onde eu fora à missa, meu marido me disse: –Vendi a casa. Fiquei tão contente com esta notícia e perguntei logo: – E agora vamos para Gramadinho? Meu marido tinha tido a proposta de comprar uma casa comercial naquela localidade, e eu apreciava a ideia de mudar-me para lá.

Tínhamos o prazo de um mês para liquidar nossos negócios e entregar a casa aos compradores. Meu marido Beppi, a cavalo, partiu para Gramadinho, a três quilômetros de Ilópolis, na estrada que vai à Soledade, cerca de cinquenta quilômetros de Guaporé. Combinou com o tal comerciante o negócio da casa e ficou de voltar lá, em poucos dias, para fazer as escrituras. Enquanto isso, eu fui encaixotando a nossa mercadoria. Quando o Beppi foi de novo a Gramadinho para as escrituras o vendedor lhe disse que estava arrependido e considerava o
negócio desmanchado. Voltou para casa, não muito descontente, meu marido não gostava de Gramadinho.

Assim, depois de estudarmos as diferentes possibilidades e conveniências ante a necessidade de nos estabelecermos de novo, acabamos comprando a casa comercial do Sr. Gazzana, na Linha Três de Maio, ou Linha Terceira, como era por todos conhecida, próxima à
cidade de Guaporé.

Linha Três de Maio

Mudamo-nos para a Linha Três de Maio em janeiro de 1945, antes do Bruno, nosso último filho, completar seu primeiro ano de vida. A casa era velha e feia, sem comodidades, situada na encruzilhada, onde a estrada geral é cortada pela estrada secundária que, ao leste ia para a Brítola e, ao oeste, para Anta Gorda.

Tínhamos um poço e uma cisterna na qual era recolhida a água da chuva. Por ser a família muito grande, por não termos abundância de água e pessoas para o serviço doméstico, passei a mandar lavar a roupa. Por muitos anos, foi nossa lavadeira a Sra. Meneghel.

Os filhos foram matriculados nas escolas da cidade; o Renato, no colégio Conceição dos Irmãos Maristas, O Evaldo frequentou primeiramente a escola do bairro do Curtume que funcionava na casa do seu padrinho Mocelin; as moças, Elsa, Clara, Ornela e Maria, no colégio Scalabrini, que iniciava naquele ano suas atividades num edifício novo. Iam à escola todos os dias, de manhã e à tarde, de charrete, puxada por um cavalão manso, cego de um olho, chamado Brinquedo.

Os filhos mais velhos já tinham concluído seus estudos: o Mário passara cinco anos no internato do Colégio Conceição, onde fez o curso de contabilidade; o Plínio também foi interno do mesmo colégio, mas não concluiu o curso, não gostava do estudo. Creio até que ele nunca
conseguiu ler um livro. Os dois fizeram naquele colégio o Tiro de Guerra, que era um curso que substituía o serviço militar, que só foi criado mais tarde.

1945 – Família Astolfi indo para a escola. Elsa, Bruno, Evaldo, Renato, Maria, Carmen, Ornela e Clara.

A Zélia esteve interna no Colégio Scalabrini e depois foi mandada a Caxias fazer o curso complementar para ser professora. Lá conheceu seu futuro marido, viúvo, pai de quatro filhos, com quem se casou imediatamente após a conclusão do curso. A Clara e a Elsa foram de muita ajuda na loja. Eram boas balconistas. A Elsa fez curso de corte e costura, a Clara, de bordado a máquina. A primeira a casar foi a Clara, um ano depois casou a Elsa. O Mario já havia casado e morava em Gramadinho, já tinha um filho, o Tirso. O Plínio, também casado, trabalhava com o caminhão para a nossa casa. O Evaldo voltou do Seminário de Bom Princípio, onde ficara três anos e três meses, chegando em casa, inesperadamente, na véspera do casamento da Elsa. O Renato e a Ornela (que havia abandonado os estudos) assumiram o trabalho da loja. A Maria foi a Novo Hamburgo fazer o curso Normal e a Carmen, para o Colégio Notre Dame de Passo Fundo fazer o mesmo curso. O Evaldo, depois do serviço militar feito em Cruz Alta, arrumou emprego em Porto Alegre, num banco, e mais tarde, em Novo Hamburgo, onde casou e se estabeleceu. Cansados da loja, sem mais ninguém que tomasse conta do muito trabalho que havia, o Beppi vendeu-a e nos mudamos para a casa que se acabara de construir, no terreno vizinho ao Plínio. Era o ano de 1957.

Depois da mudança, passado algum tempo, o Renato foi a Gramadinho trabalhar com o Mário; o Bruno continuava no internato do Colégio dos padres em Sarandi. Mais tarde, ao deixar o colégio, foi trabalhar em Nova Prata, onde casou e se estabeleceu. A Maria transferiu-se para
Novo Hamburgo para cursar a faculdade; a Ornela casou e foi morar na cidade, mas vinha nos visitar todos os dias; a Carmen também casou e foi morar no Rio de Janeiro. A nossa sobrinha, Clara Cenci, que vivia em nossa casa desde os quatro anos, foi mandada ao Rio de Janeiro para ficar com a Carmen (que já tinha dois filhos), casou e mudou-se para New York. Passamos a viver sozinhos. O trabalho da casa era feito por uma empregada.

Filhas de Itália Dall’Acqua e José Astolfi em 1935. Ornela e Clara com seus vestidinhos de crochê vermelho e amarelo, Elza e Zélia tendo em frente Maria nascida em maio de 1934. A sexta filha do casal, Carmem, nasceria em agosto de 1936.

Passagens do Passado

Em 1932, o Beppi, meu marido, foi operado de apendicite. Tudo correu bem. Voltou para casa e em vez de restabelecer e readquirir forças, foi enfraquecendo, sem apetite, até que um dia apareceu a febre. Veio vê-lo o Dr. Engel, o mesmo que o tinha operado, e diagnosticou tifo. Seu estado piorava a cada dia até que começou a delirar. Então me assustei. Pedi a um vizinho que fosse à cidade pedir a um sacerdote que viesse prepará-lo, caso a morte o surpreendesse. Antes da chegada do padre, perguntei-lhe se gostaria de receber a visita do sacerdote. Ele me respondeu que sim. O padre confessou-o e tratou de me consolar com palavras de coragem, mas eu vi que a impressão que ele tivera do doente era a mais desalentadora possível. Perguntei ao meu marido se estava contente por ter cumprido o seu dever de cristão recebendo os
sacramentos da penitencia e comunhão, respondeu-me que sim, que estava contente e tranquilo. Naquele dia manteve ainda a lucidez de espírito. Daí em diante, vivemos os dias mais terríveis que se pode imaginar. Ele não reconhecia minha mãe que viera de Casca para me ajudar. Ela aplicava-lhe as injeções e como eram muito dolorosas, ele me dizia: – Manda embora aquela velha que me faz sofrer.

Fechamos à loja, todos achavam que a morte podia ocorrer a qualquer momento. A loja ficou fechada durante uma semana. Depois foi reaberta, e o Angelim e o presidente da Cooperativa tomaram conta do trabalho.

O doente continuava mal e sempre delirando. Não suportava o lampião aceso no quarto e nem gente. Só podíamos ficar eu e minha mãe, mas ele só se dava conta da presença dela no momento das injeções. Lembro que era domingo de Páscoa. Pensei que ele não terminasse o dia
com vida. Seus músculos já não aceitavam mais as injeções. Eu disse à minha mãe: – Faz pouco tempo tive um natal tão triste, agora vou ter a Páscoa, porque no último Natal eu havia perdido o Gastão, e naquele momento, meu marido estava à beira da morte. Eu me sentia desesperada e rezava a Deus e a Nossa Senhora pedindo que não o tirassem de mim. Rezei a todos os santos e invoquei a ajuda da mãe dele, minha sogra, e também do filhinho Gastão, os dois tinham morrido no ano interior.

O Dr. Engel foi chamado muitas vezes em horas críticas, que foram muitas, pois o doente teve todas as complicações possíveis que costumavam aparecer com aquela doença. Eu tomava a febre quatro vezes por dia e anotava. Quando vinha o médico, mostrava-lhe. Se achava necessário, telefonava-lhe à noite e se eu não telefonasse, ele chamava para saber como estava o doente. O Dr. Engel foi não só um bom médico, foi um amigo. Terei sempre em mente o bem que ele nos fez, cuidando de meu marido. Quando ele morreu, mandei rezar uma missa por sua alma, outra coisa eu não poderia fazer.

Assim foi passando maio e junho, sempre delirando. E ele adoecera na primeira quinzena de abril. Em fins de julho começou a melhorar. E um dia acordou lúcido e alegre como se estivesse em perfeita saúde. Foi a melhor surpresa para mim, pois, horas antes, na sua inconsciência, ainda dizia disparates.

Mas a minha surpresa aumentou quando ele me disse: – sabes que eu vi na porta do quarto a minha mãe e o nosso nenê que morreu… Eles chegaram à porta e olharam, depois não os vi mais.

Estas foram as primeiras palavras que meu querido doente falou ao readquirir a lucidez de espírito. Eu não tinha dito a ninguém, nem à minha mãe, das rezas e do pedido de ajuda que fizera às almas da mãe do meu marido e do meu filhinho. Esta é a pura verdade do que aconteceu. No momento, fiquei abalada, mas depois compreendi que os nossos mortos podem nos ajudar se nós pedimos de todo o coração como aconteceu a mim. Nunca contei esse fato a ninguém, nem a minha mãe, nem às minhas filhas falei. Só ultimamente contei-o às minhas filhas. Finalmente recuperou a saúde, e a vida continuou como antes: trabalho e mais trabalho. Felizmente o Angelin continuou conosco, nos ajudando. Minha irmã Anita, cuidava das crianças e do bom andamento da casa. Tratei sempre de manter afastadas do quarto do doente as crianças, pois o tifo é má doença e perigosa. Entre nossos vizinhos houve três mortes de pessoas adultas, entre elas um irmão mais velho do meu marido e uma mocinha de treze anos.

Mais tarde, grávida da Maria, senti que meus olhos estavam doentes. De um, eu já não via desde moça; o outro estava me causando problemas. Nos últimos dias de 1933, partimos, o Beppi e eu; de ônibus, fomos a Taquari, onde embarcamos às 6 horas da tarde para Porto Alegre no vaporzinho da Cia. Arnt. Não havia linha de ônibus, ainda de madrugada chegamos. Fundeamos afastados da cidade pois só se podia desembarcar em dia claro. Consultamos o Dr. Cini, meu oculista. Achou que o meu olho bom precisava de um tratamento que duraria três meses, e o olho que não enxergava mais há um tempo tinha que ser operado de uma catarata que se não fosse tirada me causaria muitos aborrecimentos no futuro.

Assim, logo depois do Natal, na Beneficência Portuguesa, o mesmo médico extirpou a catarata do meu olho inválido, que invàlido continuaria a ser pela vida afora. Haviam decorrido dezessete anos desde o primeiro tratamento. Das seis operações que já tenho na minha conta, esta foi a mais dolorosa. Não a operação propriamente dita, embora tenha sido feita com anestesia local, mas, dolorosa nos dias que se seguiram, que foram terríveis. No dia 31 de dezembro, meu marido, que me havia acompanhado, voltou para casa de automóvel, na companhia de um senhor de Porto Alegre que viajava a Marau e tinha um lugar disponível. O homem corria muito e antes de chegar a Dois Lajeados, o carro deu um solavanco e meu marido bateu a cabeça numa trave da capota do carro e abriu uma brecha na testa. A pele ficou caída sobre o olho. Continuaram a viagem até a vila de Dois Lajeados, onde, na farmácia, chamaram o médico de Guaporé que lhe costurou a pele e fez o curativo. Depois, com outra condução, o Astolfi seguiu para a Colomba, vencendo os últimos vinte quilômetros.

Ao chegar em casa, minha irmã Anita, que tinha a seu cargo a nossa filharada – sete crianças – e mais o governo da casa, lhe deu a notícia de que na noite anterior um ladrão entrara pela porta da cozinha e como as duas portas internas que davam para a loja – onde o ladrão queria chegar –estavam fechadas a chave, munido de uma chave de parafuso iniciou o trabalho de tirar as dobradiças da porta. E tirou duas.

Minha irmã que dormia no quarto do andar superior, justamente sobre aquelas portas, com as crianças pequenas, o Renato e a Ornela, acordou de um sonho em que nossa mãe a estava chamando: Anita! Anita! Impressionada, levantou-se e abriu a janela. Talvez a mãe estivesse chegando de Casca naquela hora… mas não viu ninguém. Deitou-se de novo sem apagar o lampião. Certamente, o ladrão, ao
perceber que havia gente acordada, desistiu da empresa, mas antes de ir embora, juntou uma porção de coisas na cozinha, a bomba de chimarrão, a cuia, chinelos, etc. bendito sonho que a Anita teve…

Em fevereiro, retornei de Porto Alegre. De vapor até Taquari e depois na caminhonete de um nosso amigo que voltava para Guaporé com duas crianças e um empregado. Não lembro a hora em que embarquei em Taquari, sei que às 12 horas do mesmo dia chegava em casa.
Como foi bom estar de novo em casa, em companhia da família. Depois de tanto tempo de ausência, não há alegria maior. Os pequenos, como sentiram a falta da mãe! O Renato contava três anos. Um dia foi sentar-se no degrau da escada que dava para a estrada. Perguntaram-lhe o que fazia ali, e ele respondeu que esperava a “linha” do Lunardi para ir a Porto Alegre buscar a mãe.

O Dr. Cini me deu tratamento rigoroso para fazer durante três anos, cada fim de ano eu deveria ir ao seu consultório fazer novos exames. Segui as ordens à risca. Assim, meu único olho ainda me serve. O outro, o Dr. Ely Andrezza tirou faz poucos anos, em Caxias.

Meu Marido

O Beppi era uma ótima pessoa. Gostava de ler. Não tinha adquirido instrução por falta de escolas, mas sabia se defender na vida com o pouco que tinha aprendido e o muito que a experiência lhe ensinou. Era trabalhador, honesto e sincero. Gostava imensamente da família e da vida do lar. No fim do dia, fechada a loja e terminada a refeição da noite, ficava na cozinha com todas as crianças em torno, algumas nos seus joelhos, brincando e contando-lhes histórias.

Eram horas tão boas e felizes. As crianças adoravam o pai. Para mim, foi ótimo companheiro, bom e compreensivo. Trabalhamos lado a lado, na loja, durante trinta e quatro anos e sempre nos entendemos bem, mesmo no trabalho.

José Astolfi

Nos últimos anos ele foi diabético, mas por muito tempo não o soube, nem ele nem eu. Se não fosse por um exame de sangue feito por insistência do genro Janir, não teríamos tomado conhecimento da doença. Começamos o tratamento com o Dr. Ortiz. Não sentia dores, só a
magreza e a fraqueza o molestavam. Com o tempo, eu via que ele definhava. Sentava-se debaixo do cinamomo perto de casa, com um livro na mão, lia um pouco acabava dormindo. Eu me entava ao seu lado, e conversávamos. Olhava para ele, sentia meu coração se apertar e pensava:
até quando o terei ainda a meu lado?

Faleceu de derrame no hospital de Guaporé, no dia 20 de março de 1972. Contava 80 anos.

A leitura

Sempre gostei de ler. Li muito, desde pequena. Gostava mais de romances históricos. Meu pai era encadernador. Sempre havia livros que ele me permitia ler. Além disso, mandava vir da Itália livros para os amigos, a pedido, e também para nós. Recebia também revistas das quais era assinante.

Li livros de muitos autores: Edmundo de Amicis – deste conservo ainda duas obras que papai me deu; Alexandre Manzoni, Victor Hugo, Alexandre Dumas, Dickens, Emil Richebourg e outros que não lembro mais os nomes.

Notei certa diferença entre os livros escritos antes da primeira guerra e os escritos depois daquela guerra. Os primeiros continham uma quantidade de detalhes e de “coisinhas” sobre heróis da história; os que vieram depois já não tinham mais aquelas franjinhas. Em nossa casa, sempre assinamos jornais e revistas. Tivemos simultaneamente, o Correio Riograndense, o Correio do Povo, depois o Jornal do Dia; durante certo tempo, assinamos o Fanfulla, jornal em idioma italiano, de São Paulo e O Pioneiro, de Caxias do Sul; as revistas Eu Sei Tudo e Seleções, além de outras de trabalhos manuais, como Labores e La família em língua castelhana. Comprávamos livros de diversas editoras por reembolso postal. Todos gostávamos de ler, ou quase todos. Os filhos que estudavam sempre traziam da biblioteca do seu colégio livros que, às vezes, eram lidos por metade da família. Também para eles se fez, através do colégio, assinaturas de revistas para jovens, como O Ideal editada pelos irmãos Maristas, outra, não lembro o nome, para as moças, além da revista O Eco que serviu de leitura para os filhos durante muitos anos.

Atualmente, leio o NH, o jornal da nossa cidade, e o Correio Riograndense. Ainda gosto de ler, especialmente romances de bons autores. Gosto também de romances policiais. Nos últimos tempos, li bons livros: Anarquistas, Graças a Deus e Um chapéu de Viagem, de Zélia
Amado, O Nome da Rosa, de Umbert Eco, Desirée, de Annemarie Selinko; momentaneamente, estou lendo Um sentido para a Vida, de Saint Exupéry.

Na minha vida tive muito trabalho e muitas horas tristes por vários motivos, os mesmos que a vida oferece a todos e a todos causam dores e tristezas.

Quando me sentia desanimada e não podia fazer nada por mim mesma para melhorar a situação, eu rezava um Pai Nosso para dizer aquelas palavras que Jesus ensinou: “Seja feita a vossa vontade”. Elas me davam coragem, e quantas vezes as rezei: nas mortes dos meus queridos,
nas doenças, nas minhas ausências forçadas de casa e em tantas outras ocasiões! Fui batizada católica e sempre mantive a minha religião com todo o respeito, procurando vivê-la todos os dias, mas nem sempre me foi possível. A fraqueza humana não permite sempre dar a Deus tudo quanto a Deus devemos. Penso que só santos têm essa capacidade.

FIM…